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13 de novembro de 2011

As vozes dos animais

As vozes dos animais

[Pergunta] Gostaria de obter todas as onomatopeias referentes aos sons emitidos por animais, bem como o seu nome. Por ex.: cão – au au – ladrar. Balir é o nome que se dá ao som emitido pelas ovelhas e cabras?

Rui Campos :: :: Portugal

[Resposta] Balir é, de fato, como se denomina o som emitido pelas ovelhas e pelas cabras.
Quanto ao que pede, desconhecemos a existência de uma lista tão exaustiva como a que pretende. Para além do que poderá comparar no endereço Vozes dos Animais – e do que já consta em diversas respostas anteriores, aqui no Ciberdúvidas –, limitamo-nos a reproduzir, com a devida vênia, o que sobre o tema registraram Rodrigo de Sá Nogueira, no Elementos de Fonética Portuguesa, J.M. de Castro Pinto, no Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora, Lisboa), Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão, no Saber Escrever, Saber Falar (ed. Dom Quixote, Lisboa, 2004) e Júlio de Lemos, no Pequeno Dicionário Luso-Brasileiro (Onomatopeias e Definições),  edição de Álvaro Pinto (Revista de Portugal, 1950).
Abelha: azoina, zoa, zonzoneia, zumba, zumbe, zune, zunzuna
Abutre, aço: crocita, grasna
Águia: crocita, grasna, grita, guincha
Andorinha: chirla, chilreia, gazeia, gorjeia, pia, pipila, trinfa, trissa, zinzilula
Anho: bala, bale
Arrara: charla, grasna, grita, parla, taramela
Aganaz: chia
Asno: vd. Burro
Avestruz: grasna, ronca, ruge
Baleia: bufa
Beija-flor: arrulha, rufla, trissa
Besouro: zoa, zumbe, zune
Bezerro: berra, muge
Bisonte: berra, brama, muge
Bode: bala, bale, berra, bodeja, gagueja, regouga
Boi: muge, arrua, berra, ronca, urraBorboleta: cicia
Búfalo: berra, brama, muge, sopra
Borrego: bale, borrega
Burro: zurra, orneia, orneja, urneja, rebusna, relincha, zorna
Cabra, cabrito: berra, bale berrega, barrega, bezoa
Calhandra: grinfa
Cachorro: ainha, gane, ganiza, late
Camelo: blatera, ronca
Canário: canta, chilreia, estridula, gorjeia, grazina modula, pia, trina, trila, trina
Cão: ladra, late, gane, rosna, uiva, ulula, acua, balsa, cainha, graniza, latica,
Carneiro: berra, bala, bale, berrega, regouga
Cavalo: relincha, rincha, nitra
Cegonha: grita, glotera, grasna, grita
Chacal: uiva, chora, grita, late
Chasco: chasqueia
Cigarra: buzina, canta, fretene, chia, chichia, cicia, cigarreia, estridula, estrila, rechia, rechina, retine, zangarreia, zine, zizia, silva
Cisne: canta, arensa
Cobra: sibila, assobia, chocalha, guizalha, silva
Codorniz: canta
Coelho: chia, guincha
Cordeiro: bale, bala, berrega
Coruja: coruja, pia
Corvo: crocita, grasna, corveja
Cotovia: canta, gorjeia, assobia
Crocodilo: chora, grasna, brame
Cuco: cuca, cucula
Doninha: chia, guincha
Égua: vd. cavalo
Elefante: barre, brame, ronca, trobeteia, urra
Estorninho: pissita, assobia, chilreia
Falcão: crocita, pia, pipia
Gafanhoto: chichia, zizia, zumbe
Gaio: grasna, gralha
Gaivota: grasna, guincha, pipila
Galinha: cacareja, carcareja, carcareia, cocoreja
Galo: canta, cucurita, cucurica, clarina, cocoria
Gamo: brame
Ganso: grita, grasna, grassita
Garça: gazeia, arrulha
Gato: mia, resbuna, resmoneia, ronca, ronrona, roufenha, rosna, bufa, sopra
Gavião: atita, guincha, grita
Gazela: berra, grita
Girafa: chora
Gralha: gralha, gralheia, grasna
Grilo: canta, estridula, estrila, grilha, guizalha, trila, tritina
Grou: grulha, grasna, grugrulha, grui
Hiena: uiva, chora, gargalha, gargalheia, gargalhadeia, urra
Hipopótamo: grunhe, ronca, sopra
Jaguar: vd. onça
Javali: grunhe, ronca, rosna, ruge, arrua, cuincha
Jumento: azurra, orneia, orneja, rebusna, zorna, zurra
Lagarto: geca
Leão: ruge, urra, brama, brame, freme, rosna
Lebre: chia, berra
Leitão: cuincha, cuinca, bacoreja
Lince:ronca
Lobo: uiva, ulula, ladra, bufa
Lontra: chia, guincha, assobia
Macaco: guincha, chia, assobia, cuincha, charla
Melro: assobia, canta
Milhafre: crocita
Mocho: pia, chirreia, coruja, ri
Morcego: farfalha, trissa
Mosca: zoa, zine, zumbe, zune, zumba zizia, zonzoneia, zunzuna, sussurra, azoina
Mosquito: zumbe, trobeteia, zoina
Onça: esturra, mia, ruge, urra, geme, urra
Ouriço: ronca
Ovelha: bale, bala, berra, berrega
Pantera: mia, rosna, ruge
Papagaio: parla, fala, charla, charleia, fala, parlreia, taramela, tartareia, regouga
Pardal: chilreia, chilra, chia, pipila, grazina
Pato: grasna, grasne, grassita, guauaxa
Pavão: grita, pupila, canta
Pega: parla, tagarela, galreja, garla, grasna
Peixe: ronca
Pelicano: grasna, grassita
Perdiz, perdigão: cacareja, pia, pipia, ronca
Periquito: charla, charleia,chirleia, grasna parla
Peru: gorgoleja, grugruleja, grugrulha, grulha, cacareja, bufa
Pica-pau: estridula, restridula
Pintarroxo: canta, gorjeia, trina, assobia, gorjeia
Pintassilgo: canta, chilreia, geme, gorjeia, modula, trina
Pinto: pia
Pombo: arrulha, geme, rulha, suspira, turturilha, tuturina
Porco: grunhe, ronca, guincha
Poupa: arrulha, geme, rulha, turturina
Rã: coaxa, grasna, engrola, malha, rouqueja
Raio: coaxa, rala
Raposa: regouga, ronca, uiva, grita
Rato: chia, guincha
Rinoceronte: brame, grunhe, bufa, grunhe
Rola: geme
Rouxinol: canta, gorjeia, trina, chilreia
Sapo: coaxa, gargareja, grasna, grasne, ronca, rouqueja
Serpente: assobia, silva, funga
Tentilhão: canta, trina, gorjeia
Tigre: ruge, brame, mia, ruge, urra, brada
Tordo: trucila
Toupeira: chia
Touro: muge, berra, urra, bufa, sopra
Tucano: charla
Urso: brame, brama, ronca, ruge, chora
Vaca: muge, berra, rebrama
Veado: brame
Vitela: muge, berra
Vespa: vd. abelha
Zebra: relincha, zurra, ronca

J.M.C. :: 18/02/2004

9 de novembro de 2011

Perdão

Perdoe-me
se me perdi em teus beijos.
Perdoe-me
se eu amei como sei
sem saber de você.
E mesmo por ter os olhos fechados
perdoe-me...


(do poeta Carlos Vilarinho)
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3304555

29 de setembro de 2011

Modelos de Documentos


8 de agosto de 2011

Contos de Aprendiz


A salvação da alma – Eram cinco filhos, quatro meninos e uma menina. Moravam em uma cidadezinha onde brigar era coisa comum e questão de fazer valer sua honra. Os meninos mesmo brigavam muito entre si. O filho mais velho, Miguel, tinha ido pra cidade grande fazer o colegial deixando os outros irmãos que sempre imaginavam que com o irmão mais velho ali as coisas seriam diferentes. Ester, a única filha mulher, era o meio dos rapazes conseguirem dinheiro, vendiam a ela coisas que encontravam e ela sempre comprava, pois o pai sempre lhe dava dinheiro. Com a chegada de alguns padres na região os meninos foram levados pra confessar. Depois disso Tito, que era o penúltimo filho, chegou ao seu irmão mais novo com quem sempre brigava e humilhava nas lutas e pediu perdão, ofereceu-se a fazer qualquer coisa, primeiramente o menino disse que já tinha o perdoado, mas depois deu a ele pra se redimir a pena de levá-lo montado em suas costas e a cada distância gritar que era um burro. Como o irmão passara a andar devagar com ele em cima o mais novo lhe chutou as virilhas. Rolaram no chão em brigas e no outro dia não puderam comungar.

Sorvete – Joel e seu colega moravam em uma pequena cidade, no entanto, para quem vinha do campo já era de se impressionar. Os meninos costumavam ir ao cinema, mas em uma tarde ao passarem pela confeitaria viram um anúncio em que se oferecia sorvete de abacaxi, especialidade da casa. O amigo de Joel quis deixar o filme para ficar e tomar o sorvete, porém acabaram indo para o cinema. Lá não conseguiam prestar atenção, só pensavam no sorvete. Abandonaram o filme e foram à confeitaria. Experimentaram e odiaram, Joel comeu do mesmo jeito e o amigo foi obrigado a comer também. Deixar o sorvete na taça era ferir a honra da família. Ambos tomaram até o fim aquele sorvete que odiaram.

A doida – Na cidade havia uma doida, muitas justificativas do porquê que se tornara louca. Vivia em uma casa isolada de onde, às vezes, saia uma nega que por três meses ou menos trabalhou ali como doméstica. Os adultos para assustar as crianças faziam ameaças como: “você vai almoçar com a doida, dormir, morar com ela”. Certa vez um grupo de meninos tacava pedras na casa da doida, queriam vê-la sair da janela gritando palavrões, no entanto, ela não apareceu. O mais novo dos garotos encheu-se de coragem e penetrou o jardim, logo estava dentro da casa e os outros meninos já tinham ido embora. Na casa suja e destruída encontrou um quarto nas mesmas circunstâncias, porém ali estava a doida, ao vê-la não quis mais machucá-la, pelo contrário, percebeu que ela estava à beira da morte e se compadeceu, ficando junto dela esperando o momento chegar.

Presépio – Das dores era jovem e seu pai a enchia de tarefas para que ela não ficasse com tempo vago pra pensar em bobeiras. Nem por isso a menina deixara de viver, tinha um namorado, Abelardo. Naquele dia era véspera de natal e ele tinha ido visitá-la. A visita atrasou a finalização do presépio. Era isso que afligia Das dores, ela era a única que sabia montar corretamente o presépio e tinha que terminá-lo naquela noite, mas terminar aquilo a impediria de ir à missa de galo para ver Abelardo. Ela conhecia bem o relógio e como as horas voam quando se precisa dela, os irmãos ainda a atrapalhavam e a visita de amigas para combinar o horário de irem à missa também. Das dores montava o presépio, mas em cada objeto só via e pensava em Abelardo.

Câmara e cadeia – Estavam todos os homens da Câmara Municipal ali discutindo os impostos a serem cobrados, no entanto, entre todos aqueles homens só um fazia o trabalho, Valdemar. O calor abafava a sala e ele foi até a janela onde ficou olhando as redondezas. Embaixo da câmara ficava a cadeia, ele se lembrou de quando era menino e como a imagem dos presos já lhe era familiarizada. Foi em meio a isso que ouviu barulhos que o fez voltar à sala. Um preso havia fugido e ido lá para a câmara, os homens gritavam querendo o submeter à sua “autoridade”, Valdemar convenceu o preso de se sentar e ali ele contou que abrira a fechadura e saíra, tinha ido até lá para ver os homens que pisam na cabeça dos presos, contou também do calor e das nojentas refeições da cadeia. Até que Valdemar levantando disse que teria que prendê-lo novamente, o preso naturalmente tentou fugir, Valdemar deixou o problema com os policiais que já o perdiam de vista na fuga.

Beira rio – As chamadas terras da companhia eram lideradas pelo capitão Bonerges. Lá as bebidas alcoólicas eram proibidas e talvez por isso os trabalhadores fossem tão desanimados, não tinham o que lhes fizesse esquecer a realidade. Até que chegou por ali um negro que vendia bebida, claro que agia de forma escondida, porém nos trabalhadores logo se encontrou uma animação e disposição para o trabalho nunca visto. Bonerges desconfiando enviou dois homens para que rondassem o negro e o retirassem das terras com suas bebidas, no entanto eles voltaram alegando nada ter encontrado, mas seus bafos eram de bebida. Bonerges então chamou o capitão do destacamento policial. Eles chegaram e logo o negro afirmou ter licença do governo para ter aquele comércio ali, no entanto os homens destruíram a vendinha e todos os produtos obrigando o negro ir embora, esse foi, mais sem pressa, caminhando lentamente mesmo ao som dos tiros.

Meu companheiro – O homem na estrada pagara mais que o necessário por um cachorrinho, não passava de um vira-lata, mas tinha traços de cães de raça. Levou-o pra casa e já lhe dera o nome de pirulito para evitar confusões. A mulher não era muito chegada a animais de estimação, gostava do bichinho, mas não se aproximava. Ao filho mais novo foi dado o título de dono, porém pirulito gostava mesmo era do homem e ele do cachorrinho. Os dois eram companheiros e se punham a conversar, os meninos até implicavam, pois o cachorro gostava de gente “velha”. Então certo dia o cachorro desapareceu, o homem até pensou ter sido ação da esposa, mas logo desconsiderou, só sabia que o amigo tinha ido embora como muitas pessoas fazem.

Flor, telefone, moça – Uma amiga lhe contou essa história. Uma moça morando em uma cidadezinha vivia em uma casa ao lado do cemitério. A diversão muitas vezes era assistir os velórios. A menina de tanto acompanhar tais eventos se habituou ao cemitério e por lá já passeava. E foi em um de seus passeios que arrancou do chão uma florzinha insignificante e, instantes depois, a lançou fora sem maiores preocupações. Foi ai que começou a receber ligações de uma voz distante e suplicante que todo dia ao mesmo horário pedia sua flor de volta, aquela que nascera em sua cova. Como as ligações não paravam a menina contou aos pais que pediram ajuda policial até que só passaram a acreditar no conteúdo espiritual daquela voz e procuraram em centros ajuda. A voz não parou e ligou até que a menina de tal forma perturbada morreu.

A baronesa – Luis vivia naquela casa há um bom tempo e só vira a rica baronesa quatro vezes. E no dia da morte dela, saiu correndo em busca de Renato, o sobrinho-neto. Chegou a casa dele e juntos voltaram para a casa onde a baronesa vivia. Tratava-se de uma rica senhora e quanto mais cedo se chegasse de mais jóias se apoderaria. Renato chegou, entrou no quarto e pegou o poço que sobrara, incomodando a posição de morte da baronesa, e depois saiu do quarto. Luis o esperava, entraram no banheiro e fizeram a partilha justa das jóias da morta.

O gerente – Samuel não se casara, era o gerente bem sucedido do banco, vivia a freqüentar a sociedade até que incidentes se deram. Primeiro ao beijar a mão de uma dama a quem cumprimentava essa começou a sangrar, outra vez depois do jockey novamente quando ia beijar a dama em despedida passou correndo em um cavalo um homem e logo se viu a Mão da mulher sangrando. O médico avaliou que o dedo tinha perdido sua ponta através de uma mordida e logo acusaram Samuel, a polícia o questionou mas em nada resultou. Em uma festa, novamente ao cumprimentar uma dama, ao mesmo tempo em que um garçom passava a ponta do dedo lhe foi arrancada. A essa altura as mulheres temiam os cumprimentos de Samuel. Teve por fim uma última dama com quem tomara um sorvete e conversara sobre o inventário e outra coisa, quando foi se despedir entrou um homem vendendo lâminas e o dedo da viúva sangrou depois do beijo. Com isso, Samuel foi afastado do banco e foi morar em São Paulo, trabalhando no banco de lá, anos depois voltou ao Rio e se encontrou com a viúva que perdera a ponta do dedo, porém ela tinha adquirido uma infecção e teve o braço amputado. Os dois continuaram o encontro, porém apenas bebendo muito. Na manhã seguinte Samuel voltou a São Paulo sem finalizar o negócio que tinha levado ao Rio.

Nossa amiga – Uma menina de três anos vivia entre duas casas, para as quais ia sozinha mesmo. Para evitar a mão bisbilhoteira criaram Catarina, uma menina que por brincar com um cachorrinho de vidro que a mãe não tinha permitido, quebrou-o e virou uma borboleta “bruxa”. E Pepino que era um velho bêbado e curvado que pegava as crianças. Às vezes a menina não queria ir embora de uma casa para outra com medo do Pepino, falavam que iriam dar uma festa e chamar Pepino só para a menina ver como ele era bonzinho e ela com raiva ia embora dizendo que não viria à festa, mas logo voltava arrumada e de banho tomado. Festas era o motivo pelo qual ela tomava banho. Por fim, brincava também de mamãe, usando frases colhidas da conversa dos adultos.

Miguel e seu furto – Miguel se tornou um homem simpático, porém nunca assumira uma posição na vida e agora, findado o seu sustento, dormia em jornais. E foi lendo as manchetes desses que teve a grande idéia de roubar o mar. E assim o fez, mesmo que o mar ficasse no mesmo local novas regras tinham sido estabelecidas, como o imposto pago a Miguel e a proibição dos banhos para manter a moralidade. Ele se tornou tão rico que queimava sua riqueza para ter onde guardar as coisas que constantemente adquiria. Porém, um dia um menininho saiu correndo e arrancando suas roubas corajosamente nadou no mar e logo o povo juntou pra ver, e outro menino entrou e de repente todos se apoderavam novamente do mar. Miguel depositou sua fortuna em bancos seguros e passou a colecionar conchinhas para se lembrar de sua ex-propriedade.

Conversa de velho com criança – Ele observa o velho e a menina no ônibus. A menina, como descobriu perguntando, chamava Maria de Lourdes e o velho descobriu que chamava-se Ferreira ouvindo a conversa dos dois. A menina trazia um pacote de balas como a um tesouro e o velho vinha carregado de compras e em pé. Quando o cobrador veio, com dificuldade o velho arrancou do bolso uma moeda para pagar a passagem, porém essa lhe caiu das mãos indo parar na rua. Pararam o bonde e procuraram a moeda e como não a acharam o velho não teve que pagar. A menina ofereceu uma bala a Ferreira que aceitou, ambos eram amigos, notava-se só de olhar, percebia-se também que a menina só oferecera a bala para ela também poder comer. Quando o bonde parou os dois desceram e o homem ficou a se perguntar se eram grandes amigos ou apenas vô e neta muito amigos.

Extraordinária conversa com uma senhora de minhas relações – Ele estava em pé no ônibus se segurando pelas argolas que ficam no teto, ela estava sentada e, como eram conhecidos, sorriram. Ele não se lembrou da imagem dela, até porque a via de cima pra baixo, então quando ela o cumprimentou com um bom dia tentou decifrar quem era através da lembrança da voz. Não conseguiu e se pôs em avaliações sobre o vestido dela, o valor que dava as curvas certas e os limites que impunha. Ela lhe perguntou como ia e só na segunda vez que ele a respondeu com versos, segundos depois corrigidos pela pergunta certa, “Vou bem. E a senhora como vai?”, ao que ela lhe falou sobre sua preocupações com um gato, eletrocardiogramas e etc. No entanto, ele não a ouvia pois se questionava sobre ultrapassar ou não os limites. Depois disso o ônibus parou e ela desceu, sendo pra ele essa a mais extraordinária conversa que tivera com damas de sua relação.

Um escritor nasce e morre – Ele morava em uma cidadezinha pequena e em uma aula de geografia a professora falava sobre países longes e citou o Pólo Norte, foi ali que o escritor nasceu. Escreveu a viagem da sua cidadezinha ao Pólo Norte, a professora tomou o texto e o afirmou como um grande escritor. Foi assim que ele cresceu e foi embora, escreveu contos e poesias, não gostava de se achar um escritor literado e fazia críticas aos outros. Ao fundo ouvia uma voz que lhe afirmava ser um artista nato. Então aos trinta anos morreu.


Por Rebeca Cabral
do Canal Vestibular
URL: http://www.vestibular.brasilescola.com/resumos-de-livros/contos-aprendiz.htm

Contos Pátrios - Olavo Bilac



BILAC, Olavo & NETTO, Coelho. Contos Pátrios. Francisco Alves, RJ, 1931, 27ª ed. (ilustrado por Vasco Lima)

7 de agosto de 2011

A velhice



A velhice



O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?
Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?
Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?
 
A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!
Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!
O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!
 

Olavo Bilac
In: Poesias Infantis
RJ: Francisco Alves, 1929.

Ao coração que sofre



Ao coração que sofre




Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Talvez sonhasse, quando a vi



Talvez sonhasse, quando a vi


I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando ...

Um Beijo



Um Beijo


Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...

Velhas árvores



Velhas árvores


Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas . . .

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

13 de julho de 2011

SOBRE O POETRIX...



SOBRE O POETRIX...
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O POETRIX surgiu em 1999, com a publicação do livro TRIX – Poemetos Tropi-kais, de Goulart Gomes, premiado com Menção Especial pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores – RJ, em 2000.
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1. No POETRIX, o título é desejável, mas não exigível. Ele exerceria uma função de complementaridade ao texto, definindo-o ou sendo por ele definido.

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2. Não existe rigor quanto ao número de sílabas, métrica ou rimas no POETRIX, mas o uso do ritmo e da similaridade sonora das palavras, sim.

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3. O uso de metáforas e outras figuras de linguagem são uma constante no POETRIX, assim como a criação de neologismos.

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4. A interação autor/leitor deve ser provocada através da subliminaridade do POETRIX.

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5. O POETRIX é necessariamente uma arte minimalista, ou seja, ele procura transmitir a mais completa mensagem com o menor número de palavras.

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6. O POETRIX considera Passado, Presente e Futuro como uma só dimensão: TEMPO, podendo ser utilizado indistintamente.

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7. No POETRIX o observador (autor), as personagens e o fato observado podem interagir, criando condições suprarreais ou ilógicas ("non sense").
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O POETRIX é tipicamente urbano. Ele também aproxima-se das leituras visuais, concretas, do epigrama e do caligrama, podendo ganhar formas animadas.
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Goulart Gomes

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(Publicado no livro TRIX POEMETOS TROPI-KAIS, Goulart Gomes (Bahia: Pórtico Ed.,1999), premiado com Menção Especial pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores-RJ, em 2000)


...


Mais...

Sobre a estrutura dos POETRIX

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"Dos poetrix", porque mesmo no plural, ainda poetrix, duplix, triplix, multiplix.
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Apesar de ser linguagem poética recente, e linguagem viva, portanto sujeita a alterações e evolução, como todas são, como linguagem, é convenção. E é dessa convenção são extraídas as considerações abaixo expostas:

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- Tema: O poetrix não se subordina a qualquer tema, conceitual ou formalmente. Não está restrito a quaisquer eventos, estações do ano, momentos da vida e da natureza. Sendo uma poesia "urbana" não exclui a vida do campo. Como manifestação livre trata de idéias e momentos que tenham inspirado seu autor. Também não é "arte engajada". Estética e logicamente trata de sensações físicas, ambientais, percepções visuais e paisagísticas, emoções, conceitos, sociedade e pensamento. Se não dá espaço, por ser minimalista, a "derramamentos" emotivos não deixa de registrar momentos de fortes emoções, comunicadas em sínteses, muitas vezes fortíssimas. O envolvimento autor_e_obra e antropomorfismos não são vedados (diferentemente dos haicais, que parecem não recomendar tais conteúdos). Temporalmente, não está vinculado ao passado, presente ou futuro, e o seu tempo nem é linear ou cíclico. Pode nem mesmo se tratar de um tempo real.

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- Título: nos poetrix o título é obrigatório e parte importante do mesmo. Pode funcionar como um mote, integra-se ao poema, dá-lhe coerência, produz contradições que levam ao "susto" ou estranhamento bem vindo e induz ao desenvolvimento da poesia. Não deve ser elaborado de forma a que o poetrix seja uma quadra sem título que se disfarça em terceto.

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- Terceto: uma estrofe composta de três versos livres quanto a rima (que também pode ser usada, quando natural e bela), e onde o rítmo deve ser compatível com o assunto e a natureza do tema (parece que isso é da poesia).

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- Versos: O tamanho dos versos também é livre, não tendo um rígido número de sílabas (como os 5/7/5 dos haicais tradicionais). A contagem das sílabas deve ser feita até a última tônica de cada verso. No total, o poetrix comporta no máximo 30 sílabas, naturais ou modificadas por contrações, elisões, sinéreses e sinalefas.

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- Figuras de linguagem, gramaticais e de estilo: Tratando-se de poesia minimalista, recorre a essas figuras para no continente permitido, conseguir expressar o conteúdo que se pretende, ou que aflora. Metáforas e elípses são permitidas e mesmo recomendadas por questões estéticas ou práticas. Polissemia, catacréses, aliterações, hipérbatos, zeugmas, anacolutos, etc... um arsenal à disposição do poeta.

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- Grafismos: além das letras do alfabeto, sinais gráficos, os convencionais, são usados com certa freqüência. Parênteses, hífens, signos da matemática, interrogações, exclamações, pontos, chaves e reticências...

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- Neologismos e deformações das palavras. Regionalismos e estrangeirismos : também e tudo à disposição do autor.

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- Concretismo: embora ainda se ensaiando e não discutido mais profundamente, por manipulação da geometria dos versos e pela construção de signos a partir dos sinais gramaticais, o concretismo se insinua e se esboça em algumas composições.

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- Poesia compartilhada: Os poetrix se desdobram pelo encadeamento de dois ou mais poetrix de autores que se alternam, dando origem aos duplix, triplix e multiplix.

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GRAFITRIX:

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Entre as formas múltiplas do Poetrix reconhecidas pelo Movimento Internacional Poetrix (MIP), está o GRAFITRIX, que é um Poetrix inspirado por uma imagem ou associado a ela. Em geral, escreve-se o poetrix sobre a foto ou o desenho.

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O GRAFITRIX é uma criação de Murillo Falangola.

Fonte:  http://poetrixando.blogspot.com/

Para que eu possa *flo*rir*


Acesse o site Poetrix... ando...

27 de maio de 2010

Iracema - José de Alencar (Resumo)

Iracema - José de Alencar 
Análise feita por Carolina Bacelar, disponível em vbookstore.uol .

O foco narrativo é em 3a. pessoa e o narrador é onisciente. O narrador participa da história: "Uma história que me contaram nas lindas vargem onde nasci".

01. O romance, na definição de Machado de Assis, é uma "poema em prosa", é um poema épico-lírico (para Machado de Assis, é um poema essencialmente lírico).

1.1. Elementos épicos

  • Ver relação fatos-autor-narrador ( nas epopéias e em Iracema - rever capítulo I).
  • Presença do "maravilhoso" nas epopéias e em Iracema.
  • Ver capítulo XI - a nota 5 - a intervenção do narrador "quebrando" o sentido mágico.
        O texto é épico por ser narrativo. José de Alencar narra os feitos heróicos dos portugueses na figura de Martim. Iracema, também, é transformada em heroína. É o vinho de Tupã que permite a posse de Iracema (presença do "maravilhoso"). Além disso, temos, também, a presença dos deuses indígenas representando as forças da natureza.

1.2. Elementos líricos


        O amor de Iracema por Martim: Iracema é a heroína típica do romantismo, que padece de saudades do amante, que partiu, e da pátria que deixou. Ela se enquadra dentro de uma corrente luso-brasileira cujo início data das cantigas medievais.

02. A narrativa se fundamenta em pesquisas históricas ou em lendas da tradição oral? Como o autor define o romance? Comparar ficção propriamente dita e as "notas".

        Conclui-se que "Iracema" se fundamenta tanto na história do Brasil quanto no relato oral. Segundo seu autor, é uma lenda: "Quem não pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas" (em carta ao Dr. Jaguaribe, sobre "Iracema"). "Este livro é irmão de Iracema. Chamo-lhe de lenda como ao outro" (Ubirajara).
        Martim Soares Moreno e Filipe Camarão são vultos da história do Brasil. Ambos lutaram contra a invasão holandesa. Martim é considerado, realmente, o fundador do Ceará e Poti recebeu a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios pelos seus méritos. Alencar prefere acreditar no relato oral quando se refere à tribo tabajara cruel e sanguinária que habitava o interior, quando a história diz ser uma tribo litorânea.

03. A narrativa se estrutura em "flash back". Comprove ( reveja o 1o. e o 32o. capítulos).


        O texto se abre pelo fim. Iracema, no 1o. capítulo, já está morta, e Martim, Moacir e o cachorrinho Japi vão embora na jangada. O 32o. capítulo narra a morte de Iracema e o 33o. conta o retorno de Martim para fundar o Ceará.

04. Análise do enredo.
        4.1. Ponto de partida.

  • Fato
  • Sentido Simbólico
        Fato: é o encontro de Iracema e Martim.
        Sentido Simbólico: o encontro do colonizador com o colonizado, ou seja, a relação português X terra brasileira.

        4.2. Elementos da trama - os elementos geradores do conflito.


        O dilema de Martim: oscila entre a fidelidade a seu amigo pitigura (Poti) e seu amor por Iracema (tabajara).
        Iracema não poderia ser desvirginada, pois era uma espécie de sacerdotisa.
        Irapuã, cacique da tribo, desejava Iracema e funciona como obstáculo à realização de Martim.

        4.3. Desfecho

  • Ambigüidade: primitivismo nacionalista X transplantação cultural.
  • Visão preconceituosa do narrador - capítulo final - referência a Deus.
  • Comparar batismo indígena de Martim (capítulo 24) ao batismo católico de Poti (capítulo 33).
        Martim volta à terra selvagem para fundar a Mairi (refúgio) dos Cristãos (Ceará). Com ele, vem o sacerdote da sua região. Poti ajoelha-se ao pé da cruz para receber o mesmo Deus de Martim. Além de perder a sua religião, perde também a sua cultura e o seu próprio nome.
        Segundo Alencar, finalmente "germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem". Para ele, a cultura do branco e o Deus do branco são colocados como superiores aos dos indígenas.
        A cerimônia do batismo de Martim é episódica e superficial, não havendo nenhuma transformação básica em Martim, o que não ocorre com Poti.

05. As tribos indígenas, suas alianças e conflitos.


        As tribos são os Tabajaras (habitantes do interior) e os Pitiguaras (habitantes do litoral).

06. Elementos romântico. Sentido da Natureza (paisagens, animais).

        6.1. Na idealização dos personagens.


        Capítulo 2: É a Natureza que serve para pintar Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna, mais longos do que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como o seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como o seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem...

        6.2. Na idealização da terra


        Capítulo 1: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda, afaga impetuosa, as brancas areias, a lua argentando os campos ( para idealizar a terra, usa a própria Natureza).

07. Associe personagens aos sentimentos e/ou qualidades.

1. Andira        ( 3 ) amor, abnegação, dedicação, sacrifício pelo amado
2. Araquém        ( 2 ) sabedoria e pendência da velhice
3. Iracema        ( 5 ) amizade
4. Irapuã        ( 6 ) afeto familiar fraterno
5. Poti        ( 1 ) impetuosidade do jovem
6. Caubi        ( 4 ) ciúme, oposição

08. Valores simbólicos.

        8.1. A palavra Iracema é um anagrama de AMÉRICA. Comente.


        Seria o símbolo secreto do romance de Alencar, que é o poema épico definidor de nossas origens históricas, étnicas (miscigenação, formação do povo brasileiro) e, sociologicamente, segundo Afrânio Peixoto.
        Iracema é o símbolo da terra brasileira virgem e exótica (Iracema morre assim como os índios - mostra a docilidade dos índios).
        Como Iracema se entrega a Martim e é destruída, a terra brasileira, por permissão dos índios ( que sofrerão uma aculturação), passara a ser de posse portuguesa.

        8.2. Iracema: objeto proibido do desejo: posse do objeto = transgressão.
        Comente:

  • Postura de Martim
  • O licor de Jurema
  • Postura de Iracema
        Há proibição de se tocar o corpo de Iracema. O gesto transgressor seria punido com a morte. Martim só procura Iracema sobre os efeitos da droga. Martim não tem o corpo de Iracema em seus braços, tem apenas a sua imagem. A virgindade de Iracema é justificada pela sua situação dentro da taba, onde ocupa o lugar de sacerdotisa de Tupã. Qualquer atitude dela para unir-se a Martim transgride os valores tabajaras. Mas o amor se revela mais forte e a postura de Iracema é, desde o início, de desobediência.
        O licor de Jurema é a droga que servirá como intermediário, isto é, que servirá para derrubar as barreiras entre os dois, remetendo a relação para o nível do inconsciente.

        8.3. Valor simbólico do personagem Moacir.


        Moacir simboliza o 1o. brasileiro nascido da miscigenação índio X português. Duas vezes filho da dor de Iracema: dela nascido e, também, dela nutrido. Tal mescla de vida e morte, de dor e de alegria, acha-se tematizada pelo leite branco, ainda rubro do sangue de que se formou.

9.0 Identifique características da linguagem de Alencar em "Iracema".


        Alencar tenta concretizar a proposta do Romantismo de construir uma linguagem brasileira. Tenta, então, escrever um romance usando termos indígenas, o que revela uma linguagem autenticamente nacional.
        Obs.: a busca de uma linguagem brasileira era reflexo de uma lusofobia que invadiu o Brasil na época do Romantismo.

10. Identifique exemplos da Linguagem não verbal (rever capítulos II, X, XI, XXVI)


        Quebrar a flecha da paz no encontro de Martim e Iracema.
        A flecha atravessando o gaiamum (Iracema deveria permanecer na cabana esperando a volta de Martim, não deveria seguir em frente).
        O ramo do maracujá: a flor da lembrança. Iracema deveria guardar, com a flor, a lembrança de Martim até morrer.

11. Compare o indianismo de Alencar ao indianismo de Osvald de Andrade

        I. Relações colonizador X nativo
        II. Valor simbólico do índio: nacionalismo X primitivismo

        I. Para Alencar, desta relação que se processou por permissão do índio, provocou o surgimento do povo brasileiro. Para Osvald de Andrade, a relação foi de antropofagia e aculturação: o português aproveitou-se da fragilidade do índio para a dominação.
        II. O índio, para Alencar, era a possibilidade de despertar, no povo brasileiro recém-independente, o amor pela pátria (nacionalismo ufanista). Para Osvald de Andrade, é a forma de criticar o absurdo da dominação portuguesa, a aculturação e a destruição de um povo (nacionalismo crítico).

Macunaíma - Mário de Andrade (Resumo)


Macunaíma - Mário de Andrade
(Este resumo foi retirado do site vbookstore.uol)
Cap.I - MACUNAÍMA

        Relata o nascimento do herói, "preto retinto, filho do medo na noite", nascido de uma índia tapanhumas no meio da selva, Macunaíma aprende tardiamente a falar, mas, quando o faz (com 6 anos ao lhe darem água no chocoalho), tem pronto o seu bordão: "Ai, que preguiça!..."
        Tinha dois irmãos, Jiguê e Maanape, um velhinho feiticeiro. A diversão de Macunaíma era decepar cabeças de saúva e tomar banho nu junto com a família e as cunhãs, cujas partes íntimas agradavam muito o herói; enquanto "guspia"na cara dos machos.
        À noite, de cima de sua rede onde dormia, mijava quente na velha mãe, sonhando imoralidades e dando coices no ar.
        A companheira de Jiguê, Sofará, ajudava a cuidar de Macunaíma, levando-o ao mato para passear, mas chegando lá ele se transformava em um lindo príncipe e "brincava" muito com ela. Quando Jiguê chegava na maloca e encontrava o serviço por fazer, catava os carrapatos dela e dava-lhe uma grande surra, a qual recebia calada.
        Macunaíma conseguiu capturar uma anta quando estava no mato com com Sofará. Neste dia a cunhã se transformou em uma onça suçuarana e "brincou" violentamente com o herói, sendo assistidos por Jiguê. Este, deu uma surra no herói , levando Sofará de volta ao pai.
        "O berreiro foi tão grande que encurtou o tamanho da noite e os pássaros caíram de susto e transformaram em pedras."

Cap.II - MAIORIDADE

        Jiguê arranja uma companheira nova, Iriqui, que trazia escondido um ratão na maçaroca dos cabelos.
        Falta o que comer na maloca e para se divertir às custas dos manos, Macunaíma mente que tem timbó no rio, assim eles passam o dia todo procurando timbó, enquanto o herói afirma que timbó já tinha sido gente um dia...
        Faz uma mágica para a mãe levando-a para o outro lado do rio, onde havia fartura de caça e frutas, mas ao perceber que a mãe pretende levar alimentos para os outros, transporta-a de volta sem nada. Com raiva, a velha leva-o para o Cafundó do Judas, abandonando-o onde não poderia crescer nunca mais; lá encontrou Currupira, de cuja perna cortou um pedaço e deu para Macunaíma comer, intencionando devorá-lo depois. Macunaíma foge, enquanto Currupira chama pelo pedaço de sua perna que lhe responde: "O que foi?". Assim, ele vomita o pedaço de carne e some.
        Uma cotia derrama-lhe uma poção mágica que o faz crescer, contudo assustado desvia e a cabeça do herói não é atingida pela magia, ficando com cara de piá.
        Chegando na maloca, fica sozinho com Iriqui e "brinca" com ela, tornando-se seu companheiro. Em uma caçada, persegue uma viada matando-a, ao chegar perto desmaia: a viada era sua velha mãe!
        "Então Macunaíma deu a mão para Iriqui, Iriqui deu a mão pra Maanape, Maanape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por esse mundo"

Cap.III - CI, A MÃE DO MATO

        Um dia encontrou Ci dormindo no mato e quis "brincar"com ela, porém a cunhã defendeu-se violentamente, os manos precisaram acudi-lo, pois Ci o estava quase matando. Depois de uma paulada na cabeça, ela desmaiou e o herói pôde "bricar"com a mãe do mato. Agora virara Imperador do Mato Virgem, por isso muitas jandaias, araras, tuins, coricas, periquitos etc, vieram saudar Macunaíma.
        Passara agora a viver com Ci, por quem se apaixorara depois de com ela "brincar" em uma rede trançada por ela com os próprios cabelos. Depois de seis meses tiveram um filho que logo morreu ao mamar no peito da mãe, pois este estava contaminado pelo veneno da Cobra Preta.
        Neste dia Ci entraga a Macunaíma uma muiraquitã e sobe ao céu, transformando-se Na Beta do Centauro e no túmulo do filho nasceu um pé de guaraná.
        "Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante o calorão de Vei, a Sol". 

Cap. IV - BOIÚNA LUNA

        Fez da muiraquitã um tembetá pendurado no beiço inferior e padeçou muita saudade de Ci. Assim, choroso, seguiu viagem com os manos, sempre acompanhado das jandaias, araras etc.
        Neste capítulo, o narrador relata a lenda do surgimento da Lua. Esta era a boiúna Capei que deveria possuir uma virgem de nome Naipi, porém Naipi entregara sua virgindade ao moço Titçatê. Capei transformou Naipi em uma cachoeira chorosa e o moço em uma planta de flores roxas. Macunaíma ouviu a história da Cascata e disse-lhe que tinha vontade de matar Capei por isso. Capei saiu de baixo de Naipi, onde morava vigiando o sexo da moça e partiu para se vingar do herói. Macunaíma arrancou-lhe a cabeça e este membro de Capei tornou-se escravo dele sempre perseguindo-o, por fim resolveu subir ao céu e lá ficou morando para sempre.
        Ele perde o talismã nessa correria e o passarinho uirapuru conta-lhe que a pedra fora achada por um mariscador e vendida pra um regatão peruano chamado Venceslau Pietro Pietra, Piaimã, o gigante comedor de gente que andava com os calcanhares para frente, enriquecera e agora morava na cidade de São Paulo.
        "Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse pros manos que estava disposto a ir em SP procurar esse tal Venceslau P. P. e retomar o tembetá roubado."

Cap.V - PIAIMÃ

        Macunaíma deixa a consciência na ilha de Marapatá, sobre um pé de caruru e ruma pra SP junto com seus manos através do rio Araguaia.
        Sem perceber tomou banho em uma água encantada e ficou branco, louro e de olhos azuizinhos, os irmãos também entraram na água, porém já suja do negrume do herói, Jiguê ficou vermelho e Maanape só molhou as palmas das mãos que ficaram mais claras. E seguiram levando uma parte do tesouro da icamiabas.
        Chegando em SP a comitiva de pássaros se despedem dele. Olhava pro céu, sentia saudade de Ci, mas conheceu a moças brancas (Mani! Mani! filhinhas da mandioca...") com quem "brincou" por quatrocentos bagarotes.
        Tudo para ele era estranho na cidade e foi aprendendo o nome das coisas ( bondes, automóveis, relógio, faróis, rádios, telefones, postes chaminés) as quais chamava de Máquina. Concluiu então que "os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens."
        Macunaíma saiu com Maanape em busca de Piaimã e da muiraquitã, mas o herói foi pego pelo gigante que o queria devorar. Maanape, ajudado por uma formiga sarará e um carrapato, conseguiu trazer o herói de volta à pensão e ressucitou-o com guaraná. Pensou em arranjar uma arma para matar o gigante e foi pedir aos ingleses.
        "Agora dou minha garrucha pra você e quando alguém bulir comigo você atira. Então virou Jiguê na máquina telefone, ligou pro gigante e xingou a mãe dele".

Cap.VI - A FRANCESA E O GIGANTE

        Tentando enganar o gigante, virou Jiguê em telefone e disse a Venceslau que uma francesa iria visitá-lo. Transformado em uma francesa linda foi para tentar negociar a muiraquitã, mas o gigante queria possuí-lo antes de entregar a pedra.
        Piaimã descobre que o herói está tentando enganá-lo e tenta pegá-lo; Macunaíma corre muito, atravessando vários Estados do Brasil e só se livra do gigante quando este tenta tirá-lo de um buraco e pega no "sim-sinhô" do herói arremessando-o longe.
        Descobriu que Venceslau era um colecionador célebre e ele não, ficou contrariado e resolveu que colecionaria palavrões.
        "Ai! Que preguiça!..."

Cap. VII - MACUMBA

        Para se livrar de Piaimã, ele resolve ir ao RJ, no terreiro da tia Ciata, pedir ajuda pro Exu diabo. O herói experimentou a cachaça e soltava gargalhadas escandalosas, por isso todos pensavam que o santo abaixaria nele naquela noite. De repente uma polaca pulou no meio da roda, era Exu que havia possuído a moça. Macunaíma ficou excitado de vê-la caída daquele jeito e correu brincar com ela no meio da roda. Pediu à entidade que judiasse muito de Piaimã e, através do corpo da polaca, Macunaíma ia fazendo as maldades para o gigante que quase morria de tanto sofrer...
        "E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

Cap.VIII - VEI, A SOL

        Seguindo, Macunaíma topou com a árvore Volomã, cujos galhos estavam carregadinhos de variadas frutas; pediu uma e Volomã negou. Então o herói pronunciou algumas palavras mágicas e todas foram para o chão. Irada, Volomã atirou-o pelos pés em uma ilha deserta. Demorou tanto a cair que dormiu durante o percurso. Lá um urubu fez necessidade em sua cabeça e, po isso, ninguém se dispunha a trazê-lo de volta, pois estava fedendo muito.
        Vei, a Sol deu-lhe carona em sua jangada juntamente com suas três filhas, pois pretendia torná-lo seu genro. Mas para isso disse-lhe que não poderia brincar com nenhuma outra cunhã. Nem bem saíram para iluminar o dia, Macunaíma encontrou uma portuguesa com quem brincou demoradamente. Quando chegaram encontraram o herói dormindo com ela na jangada. Vei se zangou e não consentiu que o herói se casasse com nenhuma. À noite uma assombração comeu a portuguesa e o herói voltou para a pensão.
        "Pouca saúde e muita saúva, os males do brasil são!"

Cap. IX - CARTA PRAS ICAMIABAS

        Com um vocabulário erudito, escreve uma carta pras icamiabas, tentando relatar-lhes as aventuras pelas quais estavam passando ele e seu dois irmãos. Explica-lhes como os paulistanos as chamam, por amazonas, e como estes nunca ouviram falar da muiraquitã tão conhecida e respeitada entre as icamiabas. Sobre o dinheiro ,chama-o de "o curriculum vitae da civilização", para explicar que as mulheres cobram para brincar.
        Prolonga-se na tentativa de descrever o comportamento das mulheres paulistanas: como se vestem, como se casam. Fala dos prostíbulos, da política, vida pública em geral e, por fim, descreve a cidade de São Paulo sempre com um linguajar prolixo
        "Vazada num vernáculo pernosticamente castiço, com evidente intenção satírica, visando os puristas da belle époque e todos aqueles mais afeitos à dicção portuguesa."( Massud de Moisés - História da Literatura Brasileira).
        "Ora, sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra."

Cap.X - PAUÍ-PÓDOLE

        Enquanto aguardava uma chance de recuperar a muiraquitã, Macunaíma passeava pela cidade. Foi assim que encontrou uma cunhã vendendo flores e quando o herói passou por ela, esta colocou-lhe uma flor na botoeira da camisa, orifício que ele chamou de "puíto", segundo o narrador, um palavrão muito feio. Puíto pegou e virou moda.
        Depois de uma semana, resolveu ir ao parque ver os fogos. No caminho encontrou Fraülen ( personagem do livro Amar, verbo intransitivo) e foi com ela.
        Observando um mulato explicar sobre o dia do Cruzeiro, Macunaíma resolve desmenti-lo e contar sua versão: Pauí-Pódole era o pai do Mutum, um pássaro que fora perseguido por um feiticeiro que tentou matá-lo. Por isso Pauí resolveu morar no céu e pediu para que seu compadre vagalume alumiasse o caminho dele. Vários vagalumes o acompanharam e po isso esse caminho de estrelas pode ser explicado.

Cap. XI - A VELHA CEIUCI

        Sempre mentindo, Macunaíma convidou os manos pra caçar. Pegou dois ratos chamuscados no fogo, comeu-os e disse aos vizinhos que tinha matado dois viados catingueiros.
        Depois de desmentido pelos manos, ficou chateado e começou a ter lembranças do Mato e de Ci. Então ficaram juntos lembrando do passado.
        O herói fumou fava de paricá para ter sonhos gostosos. No outro dia causa uma grande confusão quando convence os manos a procurarem rasto de tapir na frente da bolsa de mercadorias, quase foi linchado e preso.
        Um dia resolveu pescar no igarapé Tietê e encontrou a velha Ceiuci, esposa de Piaimã. Ela capturou o herói e levou-o para casa. A filha mais nova da velha gostou de Macunaíma , "brincou" com ele e deixou-o fugir. A velha transformou a filha em um cometa e correu o Brasil inteiro atrás do herói. Ele pegou carona com um tuiuiu e voltou para a pensão.
        "A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu."
 
Cap.XII - TEQUETEQUE, CUPINZÃO E A INJUSTIÇA DOS HOMENS.

        Piaimã viaja à Europa para descansar da sova e Macunaíma fica muito frustrado. O mano Jiguê tem a idéia de irem atrás do gigante, porém Maanape conclui que o melhor é que Macunaíma se finja de pianista e vá sozinho por conta do governo. Macunaíma prefere se passar por pintor, porém não consegue nada . Além disso, agora tinha perdido quarenta contos ao comprar de um tequeteque (mascate) um gambá que, supostamente, soltava moedas de prata quando fazia necessidades.
        Então resolveu que não ia à Europa e decidiu procurar uma panela com dinheiro enterrado, não achando convida os manos para jogarem no bicho.
        Numa praça, quando refletia sobre a injustiça dos homens, viu um tico-tico e um chupim, este chorava atrás do outro pedindo comida e o pássaro tentava sustentá-lo achando que fosse seu filhote, então Macunaíma matou o tico-tico para acabar com a injustiça. Mais adiante encontrou um macaco comendo coquinhos, o bicho disse ao herói que estava comendo seu próprios toaliquiçus (bolsa escrotal), deu um pouco para o herói que gostou muito e resolveu comer os dele também. Pegou um paralelepípedo e esmigalhou seus "toaliquiçus", morrendo de dor.
        Um advogado encontra Macunaíma morto e leva-o para a pensão, chegando lá, Maanape ressuscita o mano com guaraná; acorda, pede uma centena a Maanape e joga no bicho...
        "Maanape era feiticeiro".

Cap.XIII - A PIOLHENTA DO JIGUÊ

        Jiguê arrumou uma outra companheira de nome Susi, a qual em pouco tempo já estava namorando e "brincando" com Macunaíma. Quando ia à feira comprar macacheira, levava o herói junto e com ele brincava toda a tarde. Jiguê, desconfiado, deixa a companheira em casa e passa a fazer a feira sozinho, enquanto Susi fica em casa catando os piolhos da cabeleira vermelha que eram muitos. Desconsolado com a traição de Susi dentro de sua maloca, manda-a embora e ela sobe ao céu, trasnformada em uma estrela que pula.

Cap.XIV - MUIRAQUITÃ

        Fica sabendo através dos jornais que Piaimã voltou da Europa.
        Neste capítulo, o narrador explica por que existe o sono e o homem não pode dormir em pé.
        Andando, o herói vê uma casal brincando na beira da lagoa e aproxima-se pedindo um cigarro, o moço diz que não tem e Macunaíma resolve fumar o seu de palha que traz escondido. Esperando dar a hora de ir à casa do gigante ele conta uma história ao casal, explicando que o automóvel, antigamente, era uma Onça parda que perseguida por uma tigre preta resolveu colocar quatro rodas nos pés, tomar óleo de mamona, comer um motor morder dois vagalumes...Assim, transformando-se na máquina automóvel.
        "Dizem que mais tarde a onça pariu uma ninhada enorme. Teve filhos e filhas. Por isso que a gente fala "um forde" e "uma chevrolé".
        Depois da prosa, o gigante chegou . Observando os três parados perto de sua casa, convidou-os para entrar. Perguntou ao moço se queria balançar e o moço subiu no balanço do gigante, porém a velha Ceiuci estava preparando uma macarronada e esperava o sangue do moço para engrossar o caldo. Piaimã deu-lhe um empurrão e jogou-o na macarronada fervendo Agora queria pegar o herói, porém este se recusava a balançar, fez manha e convenceu o gigante a balançar primeiro. A velha preparou o panelão sem saber quem viria engrossar o caldo. De repente, Macunaíma deu um solavanco no gigante e empurrou-o dentro da macarronada da velha Ceiuci
        Então Macunaíma matou o gigante comedor de gente e recuperou sua muiraquitã.
        "Num esforço gigantesco inda se ergueu do fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
        - Falta queijo! Exclamou...
        E faleceu."


Cap. XV - A PACUERA DO OIBÊ

        Recuperado o talismã, resolvem voltar para a selva. Na despedida repete pela última vez a sua definição sobre o país: "Pouca saúde e muita saúva,os males do Brasil são..."
        Levou com ele um revólver e um relógio que pendurou nas orelhas, um galo e uma galinha Legorne e a muiraquitã pendurada no beiço.
        Na volta, pelo Araguaia, pegou a violinha e cantou cantigas tristes e sem sentido, enquanto ia sendo acompanhado pela comitiva de pássaros que o protegia de Sol. Lembrava da donas de pele alvinha e sentia saudades de SP. Perto do mato pegou Iriqui e procurou um lugar para passar a noite.
        Em um rancho, encontrou o monstro Oibê que estava fazendo uma pacuera . Disse que estava com fome e o monstro deu-lhe cará com farinha, água e arrumou um lugar para o herói dormir. Macunaíma roubou a pacuera de Oibê e comeu-a. Perseguido pelo monstro, vomita tudo para se livrar.
        Na correria encontrou uma princesa, brinca com ela e abandona Iriqui que fica desconsolada, por isso resolve subir ao céu. "E o Setestrelo".
 
Cap. XVI - URARICOERA

        Foram chegando perto do Uraricoera e Macunaíma já começa a reconhecer o lugar, porém muita coisa havia mudado e o herói chorou. No outro dia, enquanto todos se ocupavam com algum serviço, Macunaíma deu uma chegadinha até a boca do Rio Negro para buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá; não achando, pegou a de um hispano-americano.
        Jiguê encontra uma cabaça encantada que pertence ao feiticeiro Tzaló que tem ma perna só e, com ela, consegue pescar muitos peixes, mas Macunaíma, roubando a cabaça encantada perde-a no rio e Jiguê fica furioso e deixa todos com fome. Para se vingar do mano, Macunaíma transforma uma presa de sucuri em anzol e pede para que espete a mão de Jiguê. Machucado com o anzol, Jiguê tenta curar a ferida, mas esta transforma-se em uma lepra que devora todo o corpo de Jiguê, deixando apenas sua sombra. A princesa ficou com raiva do herói porque ultimamente andava brincando com Jiguê e ordenou que a sombra envenenada destruísse Macunaíma; assim a sombra virou uma bananeira carregadinha e o herói, faminto, devorou as bananas, adquirindo a lepra. Estando moribundo resolveu passar a doença para sete povos. Veio a Saúde e livrou Macunaíma da morte.
        A sombra voltou e engoliu a princesa e o mano Maanape, mas não conseguiu pegar o herói. Correndo dela, Macunaíma passou por vários lugares do Brasil, até conseguir se livrar. Enfim, a sombra econtrou um boi, subiu nas costas dele e não deixava que o bicho comesse nada, assim o boi morreu e muitos urubus vieram fazendo a festa ( aqui o narrador explica a origem do bumba-meu-boi).
        "A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O pai do urubu ficou muito satisfeito e gritou:
        - Achei companhia pra minha cabeça, gente!
        E voou pra altura. Desde esse dia o urubu ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A sombra leprosa é a cabeça da esquerda."


Cap. XII - URSA MAIOR

        Sozinho agora e com muita preguiça, Macunaíma amarra a rede em dois cajueiros perto de uma pedra com dinheiro enterrado em baixo. "Que solidão!"
        O único que lhe fez companhia foi um aruaí (espécie de arara) muito falador, que aprendia, repetindo, todos os casos contados pelo herói, desde sua infância. E todos os dias a ave repetia o caso da véspera e Macunaíma punha-se a contar mais um.
        Depois de muitos dias na rede, comendo caju e contando casos ao papagaio, a Sol veio fazer cosquinhas no corpo do herói e a vontade de "brincar" reapareceu forte em Macunaíma, então resolveu tomar um banho frio no vale de Lágrimas para a vontade passar. Ao olhar para o fundo das águas viu uma cunhã lindíssima, era Uiara que, mandada pela Sol para atrair o herói e matá-lo, vinha dançando e piscando até que Macunaíma pulou no fundo das águas. Atacado pelas piranhas, perdeu a perna deireita, os dedões, os "cocos da Bahia", o nariz, as orelhas e o beiço com a muiraquitã. Depois de muito procurar, encontrou tudo e colou de volta no lugar, menos a perna direita e a muiraquitã, pois foram engolidos pelo monstro Ururau. Sem um sentido agora para continuar vivendo, resolveu ser brilho inútil lá no céu, deixando escrito numa laje: "NÃO NASCI PARA SER PEDRA". No céu, Pauí-Pódole virou Macunaíma na constelação da Ursa Maior.

EPÍLOGO

        Uma feita um homem foi lá.
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        Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele.
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        O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! Que era canto e que era cachiri com mel-de-pau,...
        Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente." 

Considerações gerais

        "Passando abrupdamente do primitivo solene, à crônica jocosa e desta ao distanciamento da paródia, Mário de Andrade jogou sabiamente com níveis de consciência e de comunicação diversos, justificando plenamente o título de rapsódia, mais do que romance que emprestou à obra.
        Simbolicamente, a figura de Macuaníma, o herói sem nenhum caráter, foi trabalhada como síntese de um presumido "modo de ser brasileiro" descrito como luxurioso, ávido, preguiçoso e sonhador: caracteres que lhe atribuía um teórico do Modernismo, Paulo Prado, em Retrato do Brasil(1926). Mas o herói, em Mário, é colocado na metrópole nova e funde instinto e asfalto, primitivismo e modernismo.
        Macunaíma, meio epopéia, meio novela picaresca, atuou uma idéia-força de seu autor: o emprego diferenciado da fala brasileira em nível culto; tarefa que deveria, para ele, consolidar as conquistas do Modernismo na esfera dos temas e do gosto artístico." (Alfredo Bosi)


        "Publicado no mesmo ano de Retrato do Brasil, de Paulo Prado, Macunaíma semelha indicar-lhe a contraface mítica ou folclórica: a tese das duas obras é idêntica, nucleada em torno da luxúria, obsessão do brasileiro e causa de todos os seus males. Como se a rapsódia servisse de ilustração ao ensaio, as andanças macunaímicas são dum homem primitivo, adâmico, sem peias, entregue desenfreadamente aos exercícios eróticos, de onde adviriam as mazelas que sofre. Frágil ante os perigos, salva-se por via do embuste, da mentira ou do absurdo das licenças míticas, que lhe facultam atos mágicos capazes de superar as dificuldades interpostas pelos semelhantes e pela natureza." (Massaud Moisés)

        "Macunaíma, considerado dentro de um tipo de realismo que lida com o maravilhoso e com o mágico, é uma narrativa linear na medida em que observamos o desenvolvimento de sua ação dramática. As peripécias do herói, vividas num tempo e num espaço mágicos, que absorvem o mito do índio e os mitos do povo como contraponto à mitologia da sociedade tecnizada e de uma cultura colonizada, revelam na construção da narrativa a consciência da exploração do maravilhoso e do mágico, que está, aliás, já na própria criação popular, fonte de Mário de Andrade, autor erudito." ( Telê Porto Ancona Lopez)