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3 de dezembro de 2007

“Naquele tempo
do Desprezo eu queria ser chão, isto ser:
para que em mim as árvores crescessem. Para
que sobre mim as conchas se formassem. Eu
queria ser chão no tempo do Desprezo para
que sobre mim os rios corressem.”


Manoel de Barros

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que
o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca
e que, esquivando-nos do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional."


Carlos Drummond de Andrade

Se


se
nem
for
terra

se
trans
for
mar


Paulo Leminsk

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa

Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.

Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento

Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.


Cecília Meirelles

"O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."


Carlos Drummond de Andrade

De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que estamos sempre recomeçando...
a certeza de que precisamos continuar...
e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...
Portanto devemos fazer da interrupção, um caminho novo. Da queda, um passo de dança.
Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.


Fernando Pessoa

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos..."


Fernando Pessoa

Emergência


Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Mário Quintana

Cantata Cabocla


Três vaqueiros pantaneiros
Vão seguindo pela estrada
Em meio aos lírios do mato
Em meios às garças pousadas
A sua frente uma estrela
Com jeito e cor de pitanga
Vai guiando os cavaleiros
Por entre o carandazal

Trazem oferenda nas mães:
Um ramo de ingazeiro
Um doce favo de mel
E frutos do guaviral

Atravessam os corixos
Cobertos de musgo e peixe
Passam por outros homens
Tocando suas boiadas
Chegam então num ranchinho
Reflorescido em pardais
Também havia andorinhas
E bichos do pantanal

Ofertaram seus presentes
Um ramo de ingazeiro
Um doce favo de mel
E frutos do guaviral

Na rede o Jesus caboclo
Bebia restos de orvalho
Maria e José luavam
Ao lado do filho amado
E as águas se clareando
Camalotes, sol e cio
Os pastos cheirando a verde
Aguapés virando rios

Na terra fez-se o renovo
E os sábios sonolentos
E as borboletas manhosas
Saudaram aquela manhã
Aurora de um mundo novo
Anunciando o Natal
Bem-vindo Jesus menino
Caboclo do pantanal


Sylvia Sesco e Sidnei Alberto