RSS

8 de dezembro de 2007

Destino


Quem disse ã estrela o caminho
Que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta - "Floresce!"
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


Almeida Garrett

Não te Amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
         E eu n'alma - tenho a calma,
         A calma - do jazigo.
         Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
         E a vida - nem sentida
         A trago eu já comigo.
         Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
         De um querer bruto e fero
         Que o sangue me devora,
         Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
         Quem ama a aziaga estrela
         Que lhe luz na má hora
         Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
         De mau feitiço azado
         Este indigno furor.
         Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
         Que de mim tenho espanto,
         De ti medo e terror...
         Mas amar!... não te amo, não.


Almeida Garrett

Este Inferno de Amar


Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo!-
Quem mo pôs n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói-
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonha talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


Almeida Garrett

Frei Luís de Sousa (trecho)


ATO PRIMEIRO

Câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século dezassete. Porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo, duas grandes janelas rasga- das, dando para um eirado, que olha sobre o Tejo e donde se vê toda Lisboa; entre as janelas o retrato, em corpo inteiro, de um cavaleiro moço vestido de preto, com a cruz branca de noviço' de S. João de Jerusalém. Defronte e para a boca da cena um bufete pequeno, coberto de rico pano de veludo verde franjado de prata; sobre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias feitas, e um vaso da China de colo alto, com flores. Algumas cadeiras antigas, tamboretes rasos, contadores. Da direita do espectador, porta de comunicação para o interior da casa, outra de esquerda para o exterior. – É o fim da tarde.

CENA I

MADALENA Só, sentada junto à banca os pés sobre uma grande almofada, um livro aberto no regaço e as mãos cruzadas sobre ele, como quem descaiu da leitura na meditação.

MADALENA (repetindo maquinalmente e devagar o que acabava de ler.)
«Naquele engano de alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito...»
Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. – E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa) Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, estes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh que amor, que felicidade... que desgraça a minha! (Torna a cair em profunda meditação: silêncio breve.)

CENA II

MADALENA E TELMO PAIS

TELMO (Chegando ao pé de Madalena que não sentiu entrar) – A minha senhora está a ler ?...

MADALENA (Despertando) Ah! sois vós, Telmo... Não, já não leio: há pouca luz de dia já; confundia-me a vista: – E é um bonito livro este! O teu valido, aquele nosso livro, Telmo.

TELMO (Deitando-lhe os olhos) – Oh, oh! Livro para damas – e para cavaleiros... e para todos: um livro que serve para todos; como não há outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor... quero dizer como o Sr. Manuel de Sousa Coutinho – que lá isso!... acabado escolar é ele. E assim foi seu pai antes dele, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas letras e de muito galante prática – e não somenos as outras partes de cavaleiro: uma gravidade!... Já não há daquela gente: – Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim noutra língua que a gente... que toda a gente não entende... confesso-vos que aquele mercador inglês da Rua Nova, que aqui vem às vezes, tem-me dito suas coisas que me quadram... E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é herege desta seita nova de Alemanha ou de Inglaterra. Será?

MADALENA – Olhai, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que... que...

TELMO – Que já lá vai, que era outro tempo.

MADALENA – Pois sim... (Suspira.) Eu era uma criança; pouco maior era que Maria.

TELMO – Não, a Srª D. Maria já é mais alta.

MADALENA – É verdade tem crescido de mais, e de repente nestes dois meses últimos...

TELMO – Então! Tem treze anos feitos, é quase uma senhora, está uma senhora... (À parte.) Uma senhora aquela... pobre menina!

MADALENA – (Com as lágrimas nos olhos.) – És muito amigo dela, Telmo?

TELMO – Se sou! Um anjo como aquele... uma viveza de espírito e então que coração!
________________________________________

ATO SEGUNDO

CENA I

MARIA E TELMO
(...)

TELMO (Com ansiedade.) – E esta noite ainda lidou muito nisso?
MARIA – Não; desde ontem pela tarde, que cá esteve o tio Frei Jorge e a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que lhe disse do que contava abrandar os Governadores, minha mãe ficou outra; passou-lhe de todo, ao menos até agora. – Mas então, vamos, tu não me dizes do retrato? Olha: (Designando o de el-rei D. Sebastião.) aquele do meio, bem sabes se o conhecerei; é o do meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquela tão austera, mesmo dum rei moço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao sério o cargo de reinar, e jurou que há-de engrandecer e cobrir de glória o seu reino! Ele ali está... E pensar que havia de morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que numa hora se havia de apagar toda a ousadia reflectida que está naqueles olhos rasgados, no apertar daquela boca!... Não pode ser, não pode ser. Deus não podia consentir em tal.

TELMO – Que Deus te ouvisse, anjo do céu!

MARIA – Pois não há profecias que o dizem? Há, e eu creio nelas. E também creio naquele outro que ali está; (Indica o retrato de Camões.) aquele teu amigo com quem tu andaste lá pela Índia, nessa terra de prodígios e bizarrias, por onde ele ia... como é ? ah, sim...
«Nüa mão sempre a espada e noutra a pena...»

TELMO – Oh! o meu Luís, coitado! Bem lho pagaram. Era um rapaz, mais moço do que eu muito mais... e quando o vi a última vez... foi no alpendre de S. Domingos em Lisboa – parece-me que o estou a ver – tão mal trajado, tão encolhido; ele que era tão desembaraçado e galã... e então velho! velho alquebrado, – com aquele olho que valia por dois, mas tão sumido e encovado já, que eu disse comigo: «Ruim terra comerá cedo corpo da maior alma que deitou Portugal!» – e dei-lhe um abraço... foi a último... Ele pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento cá por dentro, e disse-me: «Adeus Telmo! S. Telmo seja comigo neste cabo da navegação... que já vejo terra, amigo» – e apontou para uma cova que ali se estava a abrir. – Os frades rezavam o ofício dos mortos na igreja... Ele entrou para lá, e eu fui-me embora. Daí a um mês, vieram-me aqui dizer : «Lá foi Luís de Camões num lençol para Santa Ana.» E ninguém mais falou nele.

MARIA – Ninguém mais!... Pois não lêem aquele livro que é para dar memória aos mais esquecidos?

TELMO – O livro sim: aceitaram-no como o tributo de um escravo. Estes ricos, estes grandes, que oprimem e desprezam tudo o que não são as suas vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e para honra deles. O servo, acabada a obra, deixaram-no morrer ao desamparo sem lhes importar com isso... quem sabe se folgaram? podia pedir-lhes uma esmola – escusavam de se incomodar a dizer que não.

MARIA (Com entusiasmo.) – Está no céu, que o céu fez-se para os bons e para os infelizes, para os que já cá da terra o adivinharam! Este lia nos mistérios de Deus; as suas palavras são de profeta. Não te lembras o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?... como havia de ele então morrer? Não morreu. (Mudando de tom.) Mas o outro, o outro... quem é este outro, Telmo? Aquele aspecto tão triste, aquela expressão de melancolia tão profunda, aquelas barbas tão negras e cerradas... e aquela mão, que descansa na espada como quem não tem outro arrimo, nem outro amor, nesta vida...

TELMO – (Deixando-se surpreender.) Pois tinha, oh, se tinha...
(Maria olha para Telmo, como quem compreendeu, depois torna a fixar a vista no retrato, e ambos ficam diante dele como fascinados. No entretanto, e às últimas palavras de Maria, um homem embuçado, com o chapéu sobre os olhos, levanta o reposteiro da direita, e vem, pé ante pé, aproximando-se dos dois, que o não sentem.)


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa

As minhas asas





Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, co' as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei aos céus.


Almeida Garrett

Circuito Fechado


Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda, copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas, caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.


Ricardo Ramos

Chapeuzinho Amarelo




Era a Chapeuzinho Amarelo
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo,
aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada
nem descia.
Não estava resfriada
mas tossia.
Ouvia conto de fada
e estremecia.
Não brincava mais de nada,
nem de amarelinha.
Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol
porque tinha medo da sombra
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não se ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada,
deitada, mas sem dormir,
com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo.

Chico Buarque.

Leilão de Jardim!



Quem me compra um jardim
com flores?

borboletas de muitas
cores,

lavadeiras e
passarinhos,

ovos verde e azuis
nos ninhos?

Quem me compra este
caracol?

Quem compra um raio
de sol?

Um lagarto entre o muro
e a hera,

Uma estátua da
Primavera?

Quem me compra este
formigueiro?

E este sapo, que é
jardineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?

(Este é o meu leilão!)


Cecília Meireles
em: Ou isto ou aquilo

Jogo de Bola


A bela bola
rola:
a bela bola do Raul.

Bola amarela,
a da Arabela.

A do Raul,
azul.

Rola a amarela
e pula a azul.

A bola é mole,
é mole e rola.

A bola é bela,
é bela e pula.

É bella, rola e pula,
é mole, amarela, azul.

A de Raul é de Arabela,
e a de Arabela é de Raul.

Cecília Meireles
em: Ou isto ou aquilo

Horizonte


Pasar el horizonte envejecido
Y mirar en el fondo de los sueños
La estrella que palpita
Eras tan hermosa
Que no pudiste hablar
Yo me alejé
Pero llevo en la mano
Aquel cielo nativo
Con un sol gastado
Esta tarde
en un café
He bebido un licor tembloroso
Como un pescado rojo.
Y otra vez en el vaso escondido
Ese sueño filial
Eras tan hermosa
Que no pudiste hablar
En tu pecho algo agonizaba
Eran verdes tus ojos
Pero yo me alejaba
Eras tan hermosa
Que aprendí a cantar.

Vicente Huidobro, poeta chileno.

Poema 5


Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mias son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas mas que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aun a veces las tumban
Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Amame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.


Pablo Neruda, poeta chileno.

Poema 15


Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía;

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estas como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda, poeta chileno.

Amaranta


Rubios, pulidos senos de Amaranta,
Por una lengua de lebrel limados.
Pórtico de limones, desviados
Por el canal que asciende a tu garganta.
Roja, un puente de rizos se adelanta
E incendia tus marfiles ondulados.
Muerde, heridor, tus dientes desangrados,
Y corvo, en vilo, al viento te levanta.
La soledad, dormida en la espesura,
Calza su pie de céfiro y desciende
Del olmo al mar de la llanura.
Su cuerpo en sombra, oscuro, se le enciende
Y gladiadora, como una ascua impura,
entre Amaranta y su amador se tiende.


Rafael Alberti, poeta español.

Poema 4


Es la mañana llena de tempestad
en el corazon del verano.

Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,
el viento las sacude con sus viajeras manos.

Innumerable corazón del viento
latiendo sobre nuestro silencio enamorado.
Zumbando entre los arboles, orquestal y divino,
como una lengua llena de guerras y de cantos.

Viento que lleva en rápido robo la hojarasca
y desvía las flechas latientes de los pajaros.

Viento que la derriba en ola sin espuma
y sustancia sin peso, y fuegos inclinado.
Se rompe y se sumerge su volumen de besos
combatido en la puerta del viento del verano.


Pablo Neruda, poeta chileno.