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20 de julho de 2008

Haicai



kare-ashi ya
asahi ni kooru
haya no kao

Hirose Izen (?-1711)



Tradução:
Junco ressequido –
Gelado ao sol da manhã
O vulto do peixe.



* O junco é uma gramínea alta, que cresce em áreas alagadas. O kigo (termo de estação) deste haicai é kare-ashi, junco ressequido, representando o inverno.
Num passeio à beira do rio, o autor observa as hastes do junco, amarelecido pelo clima frio. Nesse momento, ele consegue enxergar, sob a linha d’água, a figura de um peixe, haya (também conhecido por ugui ou yamabe, sem tradução para o português), refletindo o sol matinal. Este sol é luminoso, mas não tem força para aquecer a paisagem. Por sua vez, o peixe parece congelado em sua imobilidade, realçando ainda mais a sensação de frio.
Izen pertenceu a uma próspera família de fabricantes de saquê, mas acabou caindo na pobreza. Tornou-se muito próximo de Bashô, ajudando-o até sua morte. Seguia os ensinamentos do mestre até então, mas posteriormente preferiu o caminho da graça fácil, abusando de coloquialismos. O haicai acima é anterior a este período.



A Forma do Haicai

O haicai de nossa coluna é escrito em três versos de cinco, sete e cinco sílabas poéticas, sem rima nem título. Trata-se de um formato que chamamos de tradicional, não porque seja fiel ao haicai em japonês.
Na verdade, os 5-7-5 “sons” do haicai original pouco têm a ver com a contagem silábica portuguesa. E até o conceito de verso é bem diferente. Seria mais certo dizer que o haicai japonês é composto de um único verso, ou linha, dividido por duas cesuras, isto é, pausas rítmicas.
O formato que praticamos é o resultado de décadas de encantamento pelo haicai e sua assimilação pelos poetas do Brasil. Ao homenagearem o poema curto de Bashô, estes poetas engendraram a verdadeira tradição do haicai brasileiro.

Os três versos sem rima nem título, com 5-7-5 sílabas de comprimento, foram escolhidos por nossos antepassados, poetas brasileiros, como o formato para acomodar o haicai japonês em sua nacionalização.
Ao contrário dos que defendem a primazia do conteúdo, acreditamos que a forma também é importante. A valorização do haicai, enquanto poesia de características distintas, inicia-se pela identificação de um formato próprio. Este formato é o alicerce sobre o qual exercitamos as idéias que definem o haicai.
sando este alicerce, damos sentido comunitário ao haicai, permitindo o intercâmbio entre poetas de uma mesma época. Ao mesmo tempo, erguemos uma ponte através do tempo, estabelecendo o diálogo entre poetas do presente e do passado.

A forma do haicai, isto é, sua estrutura de três versos ou linhas de 5-7-5 sílabas, determina a orientação do que escrevemos. Escolhemos palavras e construímos nossas orações de maneira que se encaixem respeitando a distribuição possível.
O número ímpar de linhas e a quantidade assimétrica de sílabas nos três versos determinam a distribuição dos elementos do poema entre duas metades: uma mais curta, de uma linha; e uma mais longa, de duas linhas. Assim, é a forma que, de certa maneira, define o conteúdo.
É importante sempre escrever dentro da forma do haicai, procurando respeitar o número de sílabas, ainda que fique um pouco acima ou abaixo do ideal. O verdadeiro haicai começa aí.


Para ler mais Haicais clique História do Haicai



* Fonte Jornal Nippo-Brasil

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