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25 de setembro de 2008

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti



Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


*.*
Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima é mais uma colaboração de Francisco Panizo Beceiro, extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.



* Fonte: Projeto Releituras


* Imagem: Google

18 de setembro de 2008

Torn - Natalie Imbruglia (tradução)


Vídeo original clique



Torn (tradução)
Natalie Imbruglia
Composição: Natalie Imbruglia

Dilacerado

Eu pensei ter visto um homem trazido à vida
Ele era carinhoso
Ele chegou como se ele fosse majestoso
Ele mostrou-me o que era chorar

Bem, você não pode ser aquele homem que eu adorei
Você não parece saber ou
se importar para que serve o seu coraçao
Mas eu não o conheço mais

Nao há nada onde ele costumava estar
Minha conversa tem chegado ao seco
Isso é o que está acontecendo

Nada está bem, eu estou dilacerada
Eu estou totalmente sem fé
Isto é como eu sinto
Eu estou com frio e eu estou envergonhada
Estando desnuda no chão
Ilusão jamais transformada
em algo real
Eu estou bem atenta e eu posso ver
O céu perfeito está dilacerado
Você está um pouco atrasado
Eu já estou dilacerada

Então eu acho que a cartomante estava certa
Deveria ter visto apenas o que estava lá
E não uma luz divina
Mas você rastejou entre minhas veias e agora

Eu não me importo
Eu não tenho sorte
Eu não sinto tanta falta
Apenas há tantas coisas
O que eu não posso tocar
Eu estou dilacerada

Eu estou totalmente sem fé
Isto é como eu sinto
Eu estou com frio e eu estou envergonhada
Estando desnuda no chao
Ilusão jamais transformada
em algo real
Eu estou bem atenta e eu posso ver
O céu perfeito está dilacerado
Você está um pouco atrasado
Eu já estou dilacerada

Dilacerada

Ohh, ooh...

Nao há nada onde ele costumava estar
Minha inspiração tem estado seca
Isso é o que está acontecendo

Nada está bem, eu estou dilacerada
Eu estou totalmente sem fé
Você está um pouco atrasado e eu já estou dilacerada

Dilacerada
Oh

(Solo de guitarra)

Oh yeah, oh yeah

13 de setembro de 2008






“Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”

Manuel Bandeira




* Imagem: beijo-doce by Robson Freiro [Flickr]




“Amor um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.”


Camões



* Imagem: luna_tica [flickr]




“O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam.”

Eça de Queiroz



* Imagem: Carmem Farina [flickr]Google

O ANALFABETO POLÍTICO





O ANALFABETO POLÍTICO


O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo da vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguel, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.


O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.


Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.


Bertold Brecht




* Quem foi Bertold Brecht?


* Imagem: Unimep

12 de setembro de 2008

Três poemas de Manoel de Barros





PASSEIO Nº 6

Casebres em ruínas
          muros
escalavrados...
E a lesma – na sua liberdade de ir
          úmida!




MATÉRIA

O osso da ostra
A noite da ostra
Eis um material de poesia




A DESCOBERTA

Anos de estudos
         e pesquisas:
Era no amanhecer
Que as formigas escolhiam seus vestidos.



in: Matéria de Poesia
Manoel de Barros





* Imagem: Caracol Chismoso - de Chad Santos

10 de setembro de 2008

O Candidato e O Leitor




O Candidato e O Leitor
Paródia – Todo Mundo e Ninguém – Gil Vicente

Dinato, a ajudante do Diabo, está sentado numa cadeira, dormindo e roncando. Quando Belzebu, o Diabo, chega de sorrateiramente, e dá um susto em seu funcionário:

Belzebu: Dormindo em serviço! Muito bonito!

Dinato dá um pulo: Que é isso patrão! Eu tava só descansado os olhos!

Belzebu: Hum... sei...

Dinato, mudando de assunto pra não levar mais bronca: Então patrãozinho, o senhor está tão lindo hoje! O que vamos fazer neste mundo infernal?

Belzebu: Ah, ainda não sei. Acho que vamos dar um role por aí e ver o que os humanos estão fazendo.

Nisso entra “O Candidato”, vereador eleito e reeleito por vários mandatos e faz que procura algo no chão.

Belzebu e Dinato se escondem e começam a observar.

Logo em seguida, entra “O Eleitor” homem pobre e mal vestido.


Eleitor: Bom dia, senhor! O que está procurando?

Candidato: Ah! Procuro muitas coisas, muitas ao consigo, mas nunca desisto, pois sou muito teimoso e olho só pro meu umbigo.

Eleitor: Me diz seu nome então?

Candidato: “O Candidato” é assim que sou chamado, e passo o dia e o ano inteiro, correndo atrás de dinheiro, seja honesto ou roubado.

Eleitor: Meu nome é “O Eleitor”, e trabalho noite e dia, por toda a minha vida com muito suor e pouca alegria.

Belzebu, que estava em silêncio, ao ouvir a conversa dos dois, acena para Dinato, seu ajudante, e manda que tome nota:

Belzebu: Ouça, meu companheiro, que isso vale muito tomar nota:

Dinato, com o livro preto na mão: O que escrevo, Chefão do Mal?

Belzebu: Que “O Candidato” só quer dinheiro e “O Eleitor” trabalha como animal!

Eleitor: E que mais você almeja na vida?

Candidato: Eu procuro glória e poder! Mansões, iates, fazendas é tudo que mais quero!

Eleitor: Eu, como não posso enriquecer, paz e virtude eu espero. Amém! (faz o sinal da cruz)

Belzebu: Veja que coisa interessante! Anote o ponto segundo: “O Candidato” quer poder, e “O Eleitor” faz sempre a coisa certa e só se ilude!

Candidato: Além disso, meu amigo, eu adoro um puxa saco. Quero ser elogiado em todo e qualquer sentido, não importa se esteja certo ou errado!

Eleitor: Mas isso, pra mim não quero, ser ensinado eu espero, e se eu errar, quero ser repreendido.

Dinato: Chefe, essa também parece boa!

Belzebu: Então anota aí, serviçal (dando um tapa na cabeça de Dianto), pois isso é coisa de gente louca: “O candidato” quer ser louvado e “O Eleitor” só leva ralo!!

Eleitor: Nossa, meu amigo, sua vida é muito boa!

Candidato: Isso é verdade, companheiro. Viver bem é o que quero, como e fosse num paraíso. O que devo, eu não pago, pois não quero me preocupar com isso...

Eleitor: E eu trabalho muito, meu dinheirinho é suado, tudo que compro tem que ser pago, mas os juros são tão altos. Que agonia! Devo água, luz e telefone, meu nome ta sujo até nas Casas Bahia!

Belzebu: Veja, Dinato, isso também me parece muito interessante de deixar escrito no livro infernal: “O Candidato” só tem mordomia, e “O Eleitor” deve todo mundo e vive muito mal!

Eleitor: Mas como você tem tanto dinheiro sobrando?

Candidato: Ah! Isso é segredo profissional, mas como você é gente fina, isso vou te revelar: A mentira nasceu comigo e eu sou mestre em tapear.

Eleitor: Eu tenho vergonha da mentira, sempre digo a verdade, não roubo nem um centavo, pois quero pra mim somente a honestidade.

Belzebu, dando uma gargalhada: Isso sim é pra acabar!! Anote aí, caro Dinato: “O Candidato” é mentiroso e “O Eleitor” ainda acredita que há verdade!!

Dinato cai na risada junto com Belzebu.


Diana Pilatti
10.09.2008




* Esta paródia foi escrita para encenação no “Projeto Eleições 2008”, da Escola Estadual José Ferreira Barbosa, Campo Grande, MS.
* Imagem: Google
* Baixe este texto em .pdf clique

7 de setembro de 2008

Estatuto do Homem




Estatuto do Homem
(Ato Institucional Permanente)


Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.



Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964



* Imagem: Ellen Moreira [flickr]

O DICIONÁRIO DOS SONHOS



O DICIONÁRIO DOS SONHOS

Caros ouvintes amigos
queiram prestar-me atenção
que falando sobre sonhos
vou dar discriminação
porque quem sonha precisa
da sua decifração

Que seja moça ou rapaz
homem casado ou mulher
dormindo tem que sonhar
se por acaso souber
decifrar o dito sonho
sempre arranja o que quer

Se o rapaz ama uma moça
sonha com ela chorando
o amor é prolongado
termina sempre casando
sonhar abraçando ela
a outro ela está amando

Se uma moça sonhar
que está numa floresta
de baixo de um pé de árvore
beijando o rapaz na testa
é sinal que numa casa
seu amor é sem festa

E se o rapaz sonhar
com a moça na janela
não faça amizade firme
procure se afastar dela
porque depois de casados
vai se arrepender com ela

Ele sonhar vendo o céu
com forro bem azulado
é sua noiva que morre
antes dele ter casado
e se o forro for roxo
a esposa morre ao seu lado

Se uma moça sonhar
com um rapaz bem bonito
vai morrer no caritó*
mas sendo meio esquisito
é sinal de esposo bom
para isto está escrito

E quando o rapaz sonhar
com uma moça escrevendo
é casamento acabado
mas se ela estiver lendo
é sinal que tem alguém
por si chorando e roendo

Sonhar correndo a cavalo
é sinal de alegria
sonhar com um cavalo branco
os seus filhos não se cria
sonhar com ave de pena
é desgosto e agonia

Sonhar com muito dinheiro
é um sinal de pobreza
sonhar com uma igreja
casamento de nobreza
sonhar com outro é prisão
sonhar com santo é firmeza

Sonhar jogando é amor
com espelho é ingratidão
sonhar com fogo é desastre
com retrato é ambição
sonhar arrancando o dente
é morte e aflição

Rapaz sonhar que está preso
é sinal de viajar
a moça sonhar fugindo
é vontade de casar
sonhar farrando na festa
seu amor vai se acabar

Se uma moça sonhar
que está torrando café
seu noivo namora outra
e ela não sabe quem é
se sonhar lavando roupa
é amizade sem fé

Sonhar com uma rodagem**
o seu amor vai embora
e se o rapaz sonhar
andando de estrada a fora
é sinal que sua amante
com outro rapaz namora

Sonhar com uma luz acesa
nascerá nova amizade
sonhar com luz apagada
fingimento e crueldade
sonhar cantando canção
é amor e lealdade

Sonhar com um peru vivo
será breve seu noivado
a moça sonhar rezando
o noivo é descontrolado
sonhar recebendo carta
é ciumento e malvado

Sonhar abrindo uma mala
vai receber um presente
o rapaz sonhar trabalhando
se casa futuramente
sonhar lendo uma revista
é corte certamente

Sonhar com ama agulha é
vida longa e prazenteira
sonhar com um papagaio
sua esposa é arengueira***
e a moça sonhando casando
sua sogra é fuxiqueira

Sonhar com uma farmácia
casa com moça doente
com um vidro de perfume
é sebosa e indecente
sonhar com uma casa branca
boa esposa eternamente

E se o rapaz sonhar
que está lendo um jornal
é sinal que sua noiva
namora com seu rival
bota-lhe um chifre comprido
na noite de carnaval

A moça sonhar que vai
andando de estrada afora
é sinal que seu amante
a outra moça namora
e quem sonhar rindo muito
no outro dia é quem chora


* “ficar no caritó”, ficar pra titia, não casar
** estrada
*** que faz intrigas, mexericos


BORGES, J. Francisco. Dicionário dos sonhos e outras histórias de cordel. Porto Alegre: L&PM, 2003

3 de setembro de 2008

Com licença poética





Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.


In Adélia Prado, Poesia Reunida
Siciliano, São Paulo, 1991



* Imagem: "Anjo" - Ilustração de Maria Patrícia Woll

Até o Fim




Até o Fim

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamão contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Chico Buarque


* Imagem: Flickr

Poema de sete faces




Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade


* Imagem: Kboing