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3 de setembro de 2008

Com licença poética





Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.


In Adélia Prado, Poesia Reunida
Siciliano, São Paulo, 1991



* Imagem: "Anjo" - Ilustração de Maria Patrícia Woll

Um comentário:

Raquel Oliveira disse...

Sem querer encontrei seu blog, e adorei o que li. Passarei sempre. Lindas palavras, trazem emoção e isso é bacana demais.
Adorei.
Parabéns.
Abraços