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25 de junho de 2008

Machado de Assis - Sites sobre o autor





Contos Machado de Assis - Excelente site, com vários contos machadianos na íntegra.

Literatura Basileira por Sérius Gonzaga - Resumo Realismo/Naturalismo no Brasil.

encantamento




encantamento

num belo dia ela vislumbrou
por trás daquela carcaça de pedra fria
a doçura e a magia do imprevisível amor


07.05.2008

...tarde campo-grandense



...tarde campo-grandense

Um bem-te-vi
declama poesias
às flores de laranjeiras...


18.05.2008

Calada da Noite




Calada da Noite

ouvia Silêncio falar uma língua estranha
cantigas de amor
compreensíveis somente às Saudades Líricas


26.05.2008

Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota d´água!

Florbela Espanca
A mensageira das violetas

Errante

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…

Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…

Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca
Trocando olhares

Vão Orgulho

Neste mundo vaidoso o amor é nada,
É um orgulho a mais, outra vaidade,
A coroa de loiros desfolhada
Com que se espera a Imortalidade.

Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade
Mentira … Engano de alma desvairada…
Onde está desses braços a verdade,
Essa fogueira em cinzas apagada?

Mentira! Não te quis … não me quiseste,
Eflúvlos subtis dum bem celeste?
Gestos …. palavras sem nenhum condão.

Mentira! Não fui tua … não! Somente
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto orgulho de o ter sido em vão!

Florbela Espanca
Reliquiae

Só!

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida e escura,
Minh’alma sem amor é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho de água triste…a vida corre…

Florbela Espanca
Livro de Sóror Saudade

Escreve-Me…

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…

Florbela Espanca
O Livro D’Ele

A Minha Dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

Florbela Espanca
O Livro das Mágoas

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!

Florbela Espanca
Livro de Mágoas

Dize-me…

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

Florbela Espanca
A mensageira das violetas

Falo de ti

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

Florbela Espanca
A mensageira das violetas

Os meus versos

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

Florbela Espanca
A mensageira das violetas

Florbela Espanca - Sites sobre a autora




Bom dia, amigos

Além do site "Florbela Espanca", já citado neste blog como sugestão de uma boa leitura, temos muitos outros disponíveis no meio virtual para leitura e deleite. Textos estes que vão desde artigos acadêmicos à citações de poemas e imagens...

Ser Poeta: imagens da metapoesia em Florbela Espanca - Trabalho apresentado no VI CELERJ, na Faculdade de Formação de Professores, no mês de junho de 2005, por André Luiz Alves Caldas Amóra (PUC-Rio).

Jornal de Poesia - Biografia, poesias e fortuna crítica.

Página da Beatrix - Biografia (excelente), obras, Livro de Mágoas (em .pdf), textos, bibliografia sobre a autora, links.

Domínio Público - Site para alunos e professores com livros (na íntegra) para baixar (em formato .pdf): A Mensageira das Violetas, Charneca em Flor, Livro de Sóror Saudade, Livro de Mágoas, O Livro D'Ele, Poemas Selecionados e Reliquuiae.

Vidas Lusófonas - Biografia, crítica e análise literária da poesia de Florbela Espanca (Excelente!)

Panteísmo

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!

Florbela Espanca
Charneca Em Flor

O Meu Impossível

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito.É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!…Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…

Florbela Espanca
Reliquiae

Florbela Espanca - Estudos

Soneto

Por soneto entende-se uma forma de expressão literária, inventada no século XIII e sempre ligada à música, que se define pela sua fixidez. De facto, é a composição mais rígida da literatura contemporânea: compõe-se de 14 versos, geralmente decassilábicos, agrupados em duas quadras e dois tercetos (segundo a tradição italiana) ou em três tercetos e um dístico (segundo a tradição inglesa).

Seguindo fielmente o modelo italiano, o soneto foi introduzido em Portugal por Sá de Miranda, embora se tenha tornado célebre pela pena de Camões e, mais tarde, em finais do século XVIII, pela de Bocage. Em 1860, Antero de Quental reafirma a importância do soneto, divulgando-o entre a Geração de 70. Já os parnasianos modernizam o soneto, através da «chave-de-ouro», sendo este recriado no final do século XIX, no período decadentista, por poetas como Camilo Pessanha, António Nobre ou Florbela Espanca. Passado o modernismo, também os escritores contemporâneos, como Fernando Pessoa, José Régio, Jorge de Sena e David Mourão-Ferreira, se renderam à forma do soneto, generalizado-a a várias correntes literárias, por vezes, com transgressões ou alterações, mas sempre como uma obra especial.

Uma obra especial

A razão de chamar ao soneto «uma obra especial» deve-se ao facto de que, nele, o poeta consegue uma admirável variedade (Álvaro Manuel Machado, «Dicionário de Literatura Portuguesa»). Além disso, dada a sua estrutura fixa, o soneto exige, frequentemente, um exercício de engenho por parte do escritor, dando, por vezes, origem a outras formas literárias tradicionais, como o vilancete.

Por outro lado, a estrutura do soneto permite escrever num modelo de tese e antítese, seguidas de uma conclusão, expressa no último terceto ou no último verso desse terceto, a chamada «chave-de-ouro».

Mais a mais, o soneto obriga a uma determinada concentração emocional, dada a sua forma breve, o que justifica a sua escolha por poetas como Nobre ou Florbela Espanca. Para Agustina Bessa Luís, a força emotiva do soneto está na suspensão que prolonga o sentimento (…) a composição perfeita do sentimento (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).

O Amor

Para Florbela, amar é um gesto mágico: é uma experiência única, é a força motriz da sua alma, e por isso quer amar, amar perdidamente. É através de sucessivos enamoramentos que Florbela chega à inspiração, compensando com o amor a progressiva deterioração intelectual que a atinge nos últimos anos de vida. A sua obra mostra toda uma ampla gama de estados emocionais ligados ao amor, desde a exaltação dos sentidos (entrega por inteiro), até ao desejo de sacrifícios, oscilando entre momentos de plenitude e de grande fragilidade emocional, decorrentes de relações amorosas frustradas ou que não a preencheram. Aliás, não consegue encontrar satisfação no amor, daí que, de momentos de ternura, Florbela tenda repentinamente para outros de desencontro e sofrimento. Em Florbela, o amor é sempre um amor perdido, mesmo antes de ser encontrado; acarreta sucessivas desilusões, que ela procura compensar com um novo amor, que lhe traz novas desilusões. É um amor impossível, que só mostra mentiras e lhe traz desilusões, como mostra o soneto «Princesa Desalento».

Por vezes, o amor cruza-se com a temática da morte, de modo quase obsessivo, sobretudo em poemas de «Trocando Olhares», como «Cemitérios» ou «Noite Trágica».

Por outro lado, encontramos em Florbela o aparecimento de um forte sentimento religioso, evidente em «A Voz de Deus», que, em poemas como «Idílio» parece consagrar a relação amorosa, como se houvesse uma empatia, uma aprovação divina em relação a esse amor. O amor passa, então, a revestir-se de uma certa aura de religiosidade.

A evasão e o sonho

Dada a singularidade do seu temperamento, aliada à rejeição que isso motivava da parte da sociedade, e, sobretudo, em virtude das relações amorosas que nunca a satisfazem e lhe trazem sucessivas desilusões, surge em Florbela uma pretensão evasiva. Aparece, nos seus versos, a ideia de fuga, manifestada, principalmente, em «Trocando Olhares», e que tanto se poderá ligar à sua ambição de infinito, como ao desejo de morrer que a levará ao suicídio. Essa pretensão torna-se particularmente evidente, se atendermos à temática do sonho a que Florbela repetidamente regressa: ao sonho de um lugar sem mágoas, nem solidão, onde as desilusões não a possam atingir. É ela a «Maria das Quimeras», que acorda sempre dos seus sonhos de amor, mas espera, ainda assim, que essas quimeras impossíveis se renovem.

Portugal

Portugal, as suas terras e gentes, são um tema recorrente na obra de Florbela, cuja maneira, deslumbrada, de ver o país lembra muito a de António Nobre. De facto, para Florbela, Portugal é, sobretudo, um sentimento, uma forma especial de sentir a alma portuguesa: é a saudade. Por conseguinte, é muitas vezes referido como uma forma de estar na vida, traduzida pelos mitos e pela cultura portuguesa. Esta é, além do mais, uma forma de Florbela aproximar a sua poética ao saudosismo que marcava o pensamento da sua época, reforçando o cunho lusitanista e até a carga patriótica.

O sentimento da saudade, também à imagem de Nobre, é concretizado nas paisagens tipicamente portuguesas, sempre que Portugal é referido não como sentimento, mas como país. Exemplos desta faceta de Florbela são as quadras «No Minho», em que se vê como Florbela gosta de divagar pelo pitoresco dos lugares tradicionais, e os sonetos «Tardes da Minha Terra» e «Paisagem».

Carga patriótica

Nos poemas escolhidos por Florbela para integrar o livro «Alma de Portugal», de cuja publicação desistiu, irrompe claramente um fervor patriótico, que demonstra o enorme enlevo de Florbela pela pátria, pelo menos nesta altura, em que a pátria é, no fundo, uma sociedade ameaçada pela ruptura.

Em sonetos como «Meu Portugal», Florbela cria alguns estereótipos em relação à pátria lusitana, aos quais não falta a influência ou a aura providencial, presente em «Oração». Num desses poemas mais veementes, Florbela chega a invocar os nomes de duas figuras históricas de reconhecida importância, quase dois heróis nacionais: Camões e Nun’Álvares.


** Fonte: Este arquivo foi retirado do site: Florbela Espanca em 25 de junho de 2008.