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27 de novembro de 2008

TOURADA

TOURADA
(Inspirado no filme “Fale com ela”, de Pedro Almodóvar)

Preparo-me para tourear:
Meias de malha,
Colete de pedrarias,
Capa vermelha.

Lá está ele:
O touro preto
Que me persegue e ataca,
O macho indomável
Com olhos de faca.

Rodopio, numa dança,
Estranha bailarina de fogo,
Lidando com o touro na praça.

Vem, animal,
Guardião de meu labirinto,
Vem com teu sêmen,
Teu ardor violento,
Elemento de sangue,
Gênio do vento.

Vem, força descontrolada,
Que agora é tudo ou nada:
Ou te domino
Ou sou dominada
Nesta tourada.

Vem,
Com teus pés de bronze,
Tua alma endurecida,
Teus cascos;
Tens a fúria dos exércitos bascos
E eu, o desejo
De anular-te.

Essa é minha sina,
Minha arte:
Tourear
Até que um dia
Ele me mate.


Raquel Naveira
Revista da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – n°13 – outubro de 2008

PANAPANÁ


PANAPANÁ

Já viram um panapaná?
É uma onda interminável de borboletas
Que pousam sobre o pântano fumegante,
Batendo as asas impacientes,
Sorvendo sais da lama,
Num desassossego
De seres que não cansam.

Já viram um panapaná?
As borboletas formam nuvens,
Miraculoso caudal
De pétalas alaranjadas,
Perdidas e ligeiras,
Em busca de flamas brilhantes.

Crisálidas,
Meninas aladas,
Espíritos viajantes,
Esvoaçam como almas saídas
De estranhas moradas.

Atravessei o panapaná:
Era um banhado,
Um brejo
Banhado de flores,
Virei fada
Do lado de lá.


Raquel Naveira
Revista da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – n°13 – outubro de 2008