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6 de março de 2009

Trovadorismo Português

Cantigas Líricas:

As cantigas de amor exprimem a paixão infeliz, o amor não correspondido que um trovador (caracterizado nas composições pelo eu lírico masculino) dedica a sua senhora. É freqüente a adoção de uma postura servil por parte do eu lírico, que suplica a atenção da mulher amada, ao mesmo tempo em que afirma o estado de infelicidade em que vive, desde que a viu pela primeira vez.



Quantos han gran coita d'amor
               João Garcia de Guilhade

Quantos han gran coita d'amor
eno mundo, qual hoj'eu hei,
querrían morrer, eu o sei,
e haverían én sabor.
Mais mentr'eu vos vir, mia senhor,
           sempre m'eu querría viver,
           e atender e atender!

Pero ja non posso guarir,
ca ja cegan os olhos meus
por vós, e non me val i Deus
nen vós; mais por vós non mentir,
enquant'eu vós, mia senhor, vir,
           sempre m'eu querría viver,
           e atender e atender!

E tenho que fazen mal sén
quantos d'amor coitados son
de querer sa morte se non
houveron nunca d'amor ben,
com'eu faç'. E, senhor, por én
           sempre m'eu querría viver,
           e atender e atender!






Quantos o amor me fez padecer
penas que tenho padecido,
querem morrem e não duvido
que alegremente queiram morrer.
Porém enquanto vos puder ver,
           vivendo assim eu quero estar
           e esperar, e esperar.

Sei que a sofrer estou condenado
e por cós cegam os olhos meus.
Não me acudis. Nem vós, nem Deus.
Mas, se sabendo-me abandonado,
ver-vos, senhora, me for dado,
           vivendo assim eu quero estar
           e esperar, e esperar.

Esses que vêem tristemente
desamparada sua paixão,
querendo morrer, loucos estão.
Minha fortuna não é diferente;
porém eu digo constantemente:
           vivendo assim eu quero estar
           e esperar, e esperar


As cantigas de amigo apresentam uma interessante característica estrutural: o trovador assume a voz da donzela que exprime seus sentimentos pelo amigo (namorado), e predomina o desenvolvimento da temática da saudade. O cenário em que ocorre o encontro dos amantes é sempre ligado à natureza (lago, mar, campo, jardim, árvores). Também merece destaque a estrutura paralelística, em que as colpas (conjuntos de estrofes) apresentam versos de sentidos equivalentes, com pouquíssimas alterações vocabulares.


Ai, flores, ai, flores do verde pino
                              El-Rei D. Dinis

- Ai, flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
               Ai, Deus, e u é?

Ai, flores, ai, flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
               Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
               Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi à jurado?
               Ai, Deus, e u é?

- Vós me preguntades polo voss’ amigo?
E eu ben vos digo que é sano e vivo.
               Ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’ amado?
E eu ben vos digo que é vivo e sano.
               Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san’ e vivo
e seerá vosc’ ant’ o prazo saÍdo.
               Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv’ e sano
e seerá vosc’ ant’ o prazo passado.
               Ai, Deus, e u é?


"Aquel que mentiu do que pôs comigo”: Aquele que faltou ao que me prometeu.
“E u é”: Onde está ele?
Sabedes: sabeis
San’: são, sadio
“Seerá vosc’ ant’ o prazo saído”: Estará convosco dentro do prazo que combinou
Viv’: vivo


Apresentação do cenário ligado à natureza: o eu lírico dirige-se às flores do pinheiro para saber notícias do amado.

A temática da saudade fica evidenciada pela repetição do refrão:
“Ai Deus, onde está ele?”
que marca o afastamento dos amantes.

Referência ao encontro marcado: o amigo chegará dentro do prazo estabelecido. Vemos, aqui, a apresentação de uma relação amorosa bem menos idealizada do que aquela caracterizada na cantiga de amor.



in
ABAURRE, Maria Luiza. Português: língua, literatura, produção de texto: ensino médio. 1.ed. São Paulo: Moderna, 2005.