RSS

27 de maio de 2010

Iracema - José de Alencar (Resumo)

Iracema - José de Alencar 
Análise feita por Carolina Bacelar, disponível em vbookstore.uol .

O foco narrativo é em 3a. pessoa e o narrador é onisciente. O narrador participa da história: "Uma história que me contaram nas lindas vargem onde nasci".

01. O romance, na definição de Machado de Assis, é uma "poema em prosa", é um poema épico-lírico (para Machado de Assis, é um poema essencialmente lírico).

1.1. Elementos épicos

  • Ver relação fatos-autor-narrador ( nas epopéias e em Iracema - rever capítulo I).
  • Presença do "maravilhoso" nas epopéias e em Iracema.
  • Ver capítulo XI - a nota 5 - a intervenção do narrador "quebrando" o sentido mágico.
        O texto é épico por ser narrativo. José de Alencar narra os feitos heróicos dos portugueses na figura de Martim. Iracema, também, é transformada em heroína. É o vinho de Tupã que permite a posse de Iracema (presença do "maravilhoso"). Além disso, temos, também, a presença dos deuses indígenas representando as forças da natureza.

1.2. Elementos líricos


        O amor de Iracema por Martim: Iracema é a heroína típica do romantismo, que padece de saudades do amante, que partiu, e da pátria que deixou. Ela se enquadra dentro de uma corrente luso-brasileira cujo início data das cantigas medievais.

02. A narrativa se fundamenta em pesquisas históricas ou em lendas da tradição oral? Como o autor define o romance? Comparar ficção propriamente dita e as "notas".

        Conclui-se que "Iracema" se fundamenta tanto na história do Brasil quanto no relato oral. Segundo seu autor, é uma lenda: "Quem não pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas" (em carta ao Dr. Jaguaribe, sobre "Iracema"). "Este livro é irmão de Iracema. Chamo-lhe de lenda como ao outro" (Ubirajara).
        Martim Soares Moreno e Filipe Camarão são vultos da história do Brasil. Ambos lutaram contra a invasão holandesa. Martim é considerado, realmente, o fundador do Ceará e Poti recebeu a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios pelos seus méritos. Alencar prefere acreditar no relato oral quando se refere à tribo tabajara cruel e sanguinária que habitava o interior, quando a história diz ser uma tribo litorânea.

03. A narrativa se estrutura em "flash back". Comprove ( reveja o 1o. e o 32o. capítulos).


        O texto se abre pelo fim. Iracema, no 1o. capítulo, já está morta, e Martim, Moacir e o cachorrinho Japi vão embora na jangada. O 32o. capítulo narra a morte de Iracema e o 33o. conta o retorno de Martim para fundar o Ceará.

04. Análise do enredo.
        4.1. Ponto de partida.

  • Fato
  • Sentido Simbólico
        Fato: é o encontro de Iracema e Martim.
        Sentido Simbólico: o encontro do colonizador com o colonizado, ou seja, a relação português X terra brasileira.

        4.2. Elementos da trama - os elementos geradores do conflito.


        O dilema de Martim: oscila entre a fidelidade a seu amigo pitigura (Poti) e seu amor por Iracema (tabajara).
        Iracema não poderia ser desvirginada, pois era uma espécie de sacerdotisa.
        Irapuã, cacique da tribo, desejava Iracema e funciona como obstáculo à realização de Martim.

        4.3. Desfecho

  • Ambigüidade: primitivismo nacionalista X transplantação cultural.
  • Visão preconceituosa do narrador - capítulo final - referência a Deus.
  • Comparar batismo indígena de Martim (capítulo 24) ao batismo católico de Poti (capítulo 33).
        Martim volta à terra selvagem para fundar a Mairi (refúgio) dos Cristãos (Ceará). Com ele, vem o sacerdote da sua região. Poti ajoelha-se ao pé da cruz para receber o mesmo Deus de Martim. Além de perder a sua religião, perde também a sua cultura e o seu próprio nome.
        Segundo Alencar, finalmente "germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem". Para ele, a cultura do branco e o Deus do branco são colocados como superiores aos dos indígenas.
        A cerimônia do batismo de Martim é episódica e superficial, não havendo nenhuma transformação básica em Martim, o que não ocorre com Poti.

05. As tribos indígenas, suas alianças e conflitos.


        As tribos são os Tabajaras (habitantes do interior) e os Pitiguaras (habitantes do litoral).

06. Elementos romântico. Sentido da Natureza (paisagens, animais).

        6.1. Na idealização dos personagens.


        Capítulo 2: É a Natureza que serve para pintar Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna, mais longos do que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como o seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como o seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem...

        6.2. Na idealização da terra


        Capítulo 1: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda, afaga impetuosa, as brancas areias, a lua argentando os campos ( para idealizar a terra, usa a própria Natureza).

07. Associe personagens aos sentimentos e/ou qualidades.

1. Andira        ( 3 ) amor, abnegação, dedicação, sacrifício pelo amado
2. Araquém        ( 2 ) sabedoria e pendência da velhice
3. Iracema        ( 5 ) amizade
4. Irapuã        ( 6 ) afeto familiar fraterno
5. Poti        ( 1 ) impetuosidade do jovem
6. Caubi        ( 4 ) ciúme, oposição

08. Valores simbólicos.

        8.1. A palavra Iracema é um anagrama de AMÉRICA. Comente.


        Seria o símbolo secreto do romance de Alencar, que é o poema épico definidor de nossas origens históricas, étnicas (miscigenação, formação do povo brasileiro) e, sociologicamente, segundo Afrânio Peixoto.
        Iracema é o símbolo da terra brasileira virgem e exótica (Iracema morre assim como os índios - mostra a docilidade dos índios).
        Como Iracema se entrega a Martim e é destruída, a terra brasileira, por permissão dos índios ( que sofrerão uma aculturação), passara a ser de posse portuguesa.

        8.2. Iracema: objeto proibido do desejo: posse do objeto = transgressão.
        Comente:

  • Postura de Martim
  • O licor de Jurema
  • Postura de Iracema
        Há proibição de se tocar o corpo de Iracema. O gesto transgressor seria punido com a morte. Martim só procura Iracema sobre os efeitos da droga. Martim não tem o corpo de Iracema em seus braços, tem apenas a sua imagem. A virgindade de Iracema é justificada pela sua situação dentro da taba, onde ocupa o lugar de sacerdotisa de Tupã. Qualquer atitude dela para unir-se a Martim transgride os valores tabajaras. Mas o amor se revela mais forte e a postura de Iracema é, desde o início, de desobediência.
        O licor de Jurema é a droga que servirá como intermediário, isto é, que servirá para derrubar as barreiras entre os dois, remetendo a relação para o nível do inconsciente.

        8.3. Valor simbólico do personagem Moacir.


        Moacir simboliza o 1o. brasileiro nascido da miscigenação índio X português. Duas vezes filho da dor de Iracema: dela nascido e, também, dela nutrido. Tal mescla de vida e morte, de dor e de alegria, acha-se tematizada pelo leite branco, ainda rubro do sangue de que se formou.

9.0 Identifique características da linguagem de Alencar em "Iracema".


        Alencar tenta concretizar a proposta do Romantismo de construir uma linguagem brasileira. Tenta, então, escrever um romance usando termos indígenas, o que revela uma linguagem autenticamente nacional.
        Obs.: a busca de uma linguagem brasileira era reflexo de uma lusofobia que invadiu o Brasil na época do Romantismo.

10. Identifique exemplos da Linguagem não verbal (rever capítulos II, X, XI, XXVI)


        Quebrar a flecha da paz no encontro de Martim e Iracema.
        A flecha atravessando o gaiamum (Iracema deveria permanecer na cabana esperando a volta de Martim, não deveria seguir em frente).
        O ramo do maracujá: a flor da lembrança. Iracema deveria guardar, com a flor, a lembrança de Martim até morrer.

11. Compare o indianismo de Alencar ao indianismo de Osvald de Andrade

        I. Relações colonizador X nativo
        II. Valor simbólico do índio: nacionalismo X primitivismo

        I. Para Alencar, desta relação que se processou por permissão do índio, provocou o surgimento do povo brasileiro. Para Osvald de Andrade, a relação foi de antropofagia e aculturação: o português aproveitou-se da fragilidade do índio para a dominação.
        II. O índio, para Alencar, era a possibilidade de despertar, no povo brasileiro recém-independente, o amor pela pátria (nacionalismo ufanista). Para Osvald de Andrade, é a forma de criticar o absurdo da dominação portuguesa, a aculturação e a destruição de um povo (nacionalismo crítico).

Macunaíma - Mário de Andrade (Resumo)


Macunaíma - Mário de Andrade
(Este resumo foi retirado do site vbookstore.uol)
Cap.I - MACUNAÍMA

        Relata o nascimento do herói, "preto retinto, filho do medo na noite", nascido de uma índia tapanhumas no meio da selva, Macunaíma aprende tardiamente a falar, mas, quando o faz (com 6 anos ao lhe darem água no chocoalho), tem pronto o seu bordão: "Ai, que preguiça!..."
        Tinha dois irmãos, Jiguê e Maanape, um velhinho feiticeiro. A diversão de Macunaíma era decepar cabeças de saúva e tomar banho nu junto com a família e as cunhãs, cujas partes íntimas agradavam muito o herói; enquanto "guspia"na cara dos machos.
        À noite, de cima de sua rede onde dormia, mijava quente na velha mãe, sonhando imoralidades e dando coices no ar.
        A companheira de Jiguê, Sofará, ajudava a cuidar de Macunaíma, levando-o ao mato para passear, mas chegando lá ele se transformava em um lindo príncipe e "brincava" muito com ela. Quando Jiguê chegava na maloca e encontrava o serviço por fazer, catava os carrapatos dela e dava-lhe uma grande surra, a qual recebia calada.
        Macunaíma conseguiu capturar uma anta quando estava no mato com com Sofará. Neste dia a cunhã se transformou em uma onça suçuarana e "brincou" violentamente com o herói, sendo assistidos por Jiguê. Este, deu uma surra no herói , levando Sofará de volta ao pai.
        "O berreiro foi tão grande que encurtou o tamanho da noite e os pássaros caíram de susto e transformaram em pedras."

Cap.II - MAIORIDADE

        Jiguê arranja uma companheira nova, Iriqui, que trazia escondido um ratão na maçaroca dos cabelos.
        Falta o que comer na maloca e para se divertir às custas dos manos, Macunaíma mente que tem timbó no rio, assim eles passam o dia todo procurando timbó, enquanto o herói afirma que timbó já tinha sido gente um dia...
        Faz uma mágica para a mãe levando-a para o outro lado do rio, onde havia fartura de caça e frutas, mas ao perceber que a mãe pretende levar alimentos para os outros, transporta-a de volta sem nada. Com raiva, a velha leva-o para o Cafundó do Judas, abandonando-o onde não poderia crescer nunca mais; lá encontrou Currupira, de cuja perna cortou um pedaço e deu para Macunaíma comer, intencionando devorá-lo depois. Macunaíma foge, enquanto Currupira chama pelo pedaço de sua perna que lhe responde: "O que foi?". Assim, ele vomita o pedaço de carne e some.
        Uma cotia derrama-lhe uma poção mágica que o faz crescer, contudo assustado desvia e a cabeça do herói não é atingida pela magia, ficando com cara de piá.
        Chegando na maloca, fica sozinho com Iriqui e "brinca" com ela, tornando-se seu companheiro. Em uma caçada, persegue uma viada matando-a, ao chegar perto desmaia: a viada era sua velha mãe!
        "Então Macunaíma deu a mão para Iriqui, Iriqui deu a mão pra Maanape, Maanape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por esse mundo"

Cap.III - CI, A MÃE DO MATO

        Um dia encontrou Ci dormindo no mato e quis "brincar"com ela, porém a cunhã defendeu-se violentamente, os manos precisaram acudi-lo, pois Ci o estava quase matando. Depois de uma paulada na cabeça, ela desmaiou e o herói pôde "bricar"com a mãe do mato. Agora virara Imperador do Mato Virgem, por isso muitas jandaias, araras, tuins, coricas, periquitos etc, vieram saudar Macunaíma.
        Passara agora a viver com Ci, por quem se apaixorara depois de com ela "brincar" em uma rede trançada por ela com os próprios cabelos. Depois de seis meses tiveram um filho que logo morreu ao mamar no peito da mãe, pois este estava contaminado pelo veneno da Cobra Preta.
        Neste dia Ci entraga a Macunaíma uma muiraquitã e sobe ao céu, transformando-se Na Beta do Centauro e no túmulo do filho nasceu um pé de guaraná.
        "Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante o calorão de Vei, a Sol". 

Cap. IV - BOIÚNA LUNA

        Fez da muiraquitã um tembetá pendurado no beiço inferior e padeçou muita saudade de Ci. Assim, choroso, seguiu viagem com os manos, sempre acompanhado das jandaias, araras etc.
        Neste capítulo, o narrador relata a lenda do surgimento da Lua. Esta era a boiúna Capei que deveria possuir uma virgem de nome Naipi, porém Naipi entregara sua virgindade ao moço Titçatê. Capei transformou Naipi em uma cachoeira chorosa e o moço em uma planta de flores roxas. Macunaíma ouviu a história da Cascata e disse-lhe que tinha vontade de matar Capei por isso. Capei saiu de baixo de Naipi, onde morava vigiando o sexo da moça e partiu para se vingar do herói. Macunaíma arrancou-lhe a cabeça e este membro de Capei tornou-se escravo dele sempre perseguindo-o, por fim resolveu subir ao céu e lá ficou morando para sempre.
        Ele perde o talismã nessa correria e o passarinho uirapuru conta-lhe que a pedra fora achada por um mariscador e vendida pra um regatão peruano chamado Venceslau Pietro Pietra, Piaimã, o gigante comedor de gente que andava com os calcanhares para frente, enriquecera e agora morava na cidade de São Paulo.
        "Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse pros manos que estava disposto a ir em SP procurar esse tal Venceslau P. P. e retomar o tembetá roubado."

Cap.V - PIAIMÃ

        Macunaíma deixa a consciência na ilha de Marapatá, sobre um pé de caruru e ruma pra SP junto com seus manos através do rio Araguaia.
        Sem perceber tomou banho em uma água encantada e ficou branco, louro e de olhos azuizinhos, os irmãos também entraram na água, porém já suja do negrume do herói, Jiguê ficou vermelho e Maanape só molhou as palmas das mãos que ficaram mais claras. E seguiram levando uma parte do tesouro da icamiabas.
        Chegando em SP a comitiva de pássaros se despedem dele. Olhava pro céu, sentia saudade de Ci, mas conheceu a moças brancas (Mani! Mani! filhinhas da mandioca...") com quem "brincou" por quatrocentos bagarotes.
        Tudo para ele era estranho na cidade e foi aprendendo o nome das coisas ( bondes, automóveis, relógio, faróis, rádios, telefones, postes chaminés) as quais chamava de Máquina. Concluiu então que "os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens."
        Macunaíma saiu com Maanape em busca de Piaimã e da muiraquitã, mas o herói foi pego pelo gigante que o queria devorar. Maanape, ajudado por uma formiga sarará e um carrapato, conseguiu trazer o herói de volta à pensão e ressucitou-o com guaraná. Pensou em arranjar uma arma para matar o gigante e foi pedir aos ingleses.
        "Agora dou minha garrucha pra você e quando alguém bulir comigo você atira. Então virou Jiguê na máquina telefone, ligou pro gigante e xingou a mãe dele".

Cap.VI - A FRANCESA E O GIGANTE

        Tentando enganar o gigante, virou Jiguê em telefone e disse a Venceslau que uma francesa iria visitá-lo. Transformado em uma francesa linda foi para tentar negociar a muiraquitã, mas o gigante queria possuí-lo antes de entregar a pedra.
        Piaimã descobre que o herói está tentando enganá-lo e tenta pegá-lo; Macunaíma corre muito, atravessando vários Estados do Brasil e só se livra do gigante quando este tenta tirá-lo de um buraco e pega no "sim-sinhô" do herói arremessando-o longe.
        Descobriu que Venceslau era um colecionador célebre e ele não, ficou contrariado e resolveu que colecionaria palavrões.
        "Ai! Que preguiça!..."

Cap. VII - MACUMBA

        Para se livrar de Piaimã, ele resolve ir ao RJ, no terreiro da tia Ciata, pedir ajuda pro Exu diabo. O herói experimentou a cachaça e soltava gargalhadas escandalosas, por isso todos pensavam que o santo abaixaria nele naquela noite. De repente uma polaca pulou no meio da roda, era Exu que havia possuído a moça. Macunaíma ficou excitado de vê-la caída daquele jeito e correu brincar com ela no meio da roda. Pediu à entidade que judiasse muito de Piaimã e, através do corpo da polaca, Macunaíma ia fazendo as maldades para o gigante que quase morria de tanto sofrer...
        "E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

Cap.VIII - VEI, A SOL

        Seguindo, Macunaíma topou com a árvore Volomã, cujos galhos estavam carregadinhos de variadas frutas; pediu uma e Volomã negou. Então o herói pronunciou algumas palavras mágicas e todas foram para o chão. Irada, Volomã atirou-o pelos pés em uma ilha deserta. Demorou tanto a cair que dormiu durante o percurso. Lá um urubu fez necessidade em sua cabeça e, po isso, ninguém se dispunha a trazê-lo de volta, pois estava fedendo muito.
        Vei, a Sol deu-lhe carona em sua jangada juntamente com suas três filhas, pois pretendia torná-lo seu genro. Mas para isso disse-lhe que não poderia brincar com nenhuma outra cunhã. Nem bem saíram para iluminar o dia, Macunaíma encontrou uma portuguesa com quem brincou demoradamente. Quando chegaram encontraram o herói dormindo com ela na jangada. Vei se zangou e não consentiu que o herói se casasse com nenhuma. À noite uma assombração comeu a portuguesa e o herói voltou para a pensão.
        "Pouca saúde e muita saúva, os males do brasil são!"

Cap. IX - CARTA PRAS ICAMIABAS

        Com um vocabulário erudito, escreve uma carta pras icamiabas, tentando relatar-lhes as aventuras pelas quais estavam passando ele e seu dois irmãos. Explica-lhes como os paulistanos as chamam, por amazonas, e como estes nunca ouviram falar da muiraquitã tão conhecida e respeitada entre as icamiabas. Sobre o dinheiro ,chama-o de "o curriculum vitae da civilização", para explicar que as mulheres cobram para brincar.
        Prolonga-se na tentativa de descrever o comportamento das mulheres paulistanas: como se vestem, como se casam. Fala dos prostíbulos, da política, vida pública em geral e, por fim, descreve a cidade de São Paulo sempre com um linguajar prolixo
        "Vazada num vernáculo pernosticamente castiço, com evidente intenção satírica, visando os puristas da belle époque e todos aqueles mais afeitos à dicção portuguesa."( Massud de Moisés - História da Literatura Brasileira).
        "Ora, sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra."

Cap.X - PAUÍ-PÓDOLE

        Enquanto aguardava uma chance de recuperar a muiraquitã, Macunaíma passeava pela cidade. Foi assim que encontrou uma cunhã vendendo flores e quando o herói passou por ela, esta colocou-lhe uma flor na botoeira da camisa, orifício que ele chamou de "puíto", segundo o narrador, um palavrão muito feio. Puíto pegou e virou moda.
        Depois de uma semana, resolveu ir ao parque ver os fogos. No caminho encontrou Fraülen ( personagem do livro Amar, verbo intransitivo) e foi com ela.
        Observando um mulato explicar sobre o dia do Cruzeiro, Macunaíma resolve desmenti-lo e contar sua versão: Pauí-Pódole era o pai do Mutum, um pássaro que fora perseguido por um feiticeiro que tentou matá-lo. Por isso Pauí resolveu morar no céu e pediu para que seu compadre vagalume alumiasse o caminho dele. Vários vagalumes o acompanharam e po isso esse caminho de estrelas pode ser explicado.

Cap. XI - A VELHA CEIUCI

        Sempre mentindo, Macunaíma convidou os manos pra caçar. Pegou dois ratos chamuscados no fogo, comeu-os e disse aos vizinhos que tinha matado dois viados catingueiros.
        Depois de desmentido pelos manos, ficou chateado e começou a ter lembranças do Mato e de Ci. Então ficaram juntos lembrando do passado.
        O herói fumou fava de paricá para ter sonhos gostosos. No outro dia causa uma grande confusão quando convence os manos a procurarem rasto de tapir na frente da bolsa de mercadorias, quase foi linchado e preso.
        Um dia resolveu pescar no igarapé Tietê e encontrou a velha Ceiuci, esposa de Piaimã. Ela capturou o herói e levou-o para casa. A filha mais nova da velha gostou de Macunaíma , "brincou" com ele e deixou-o fugir. A velha transformou a filha em um cometa e correu o Brasil inteiro atrás do herói. Ele pegou carona com um tuiuiu e voltou para a pensão.
        "A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu."
 
Cap.XII - TEQUETEQUE, CUPINZÃO E A INJUSTIÇA DOS HOMENS.

        Piaimã viaja à Europa para descansar da sova e Macunaíma fica muito frustrado. O mano Jiguê tem a idéia de irem atrás do gigante, porém Maanape conclui que o melhor é que Macunaíma se finja de pianista e vá sozinho por conta do governo. Macunaíma prefere se passar por pintor, porém não consegue nada . Além disso, agora tinha perdido quarenta contos ao comprar de um tequeteque (mascate) um gambá que, supostamente, soltava moedas de prata quando fazia necessidades.
        Então resolveu que não ia à Europa e decidiu procurar uma panela com dinheiro enterrado, não achando convida os manos para jogarem no bicho.
        Numa praça, quando refletia sobre a injustiça dos homens, viu um tico-tico e um chupim, este chorava atrás do outro pedindo comida e o pássaro tentava sustentá-lo achando que fosse seu filhote, então Macunaíma matou o tico-tico para acabar com a injustiça. Mais adiante encontrou um macaco comendo coquinhos, o bicho disse ao herói que estava comendo seu próprios toaliquiçus (bolsa escrotal), deu um pouco para o herói que gostou muito e resolveu comer os dele também. Pegou um paralelepípedo e esmigalhou seus "toaliquiçus", morrendo de dor.
        Um advogado encontra Macunaíma morto e leva-o para a pensão, chegando lá, Maanape ressuscita o mano com guaraná; acorda, pede uma centena a Maanape e joga no bicho...
        "Maanape era feiticeiro".

Cap.XIII - A PIOLHENTA DO JIGUÊ

        Jiguê arrumou uma outra companheira de nome Susi, a qual em pouco tempo já estava namorando e "brincando" com Macunaíma. Quando ia à feira comprar macacheira, levava o herói junto e com ele brincava toda a tarde. Jiguê, desconfiado, deixa a companheira em casa e passa a fazer a feira sozinho, enquanto Susi fica em casa catando os piolhos da cabeleira vermelha que eram muitos. Desconsolado com a traição de Susi dentro de sua maloca, manda-a embora e ela sobe ao céu, trasnformada em uma estrela que pula.

Cap.XIV - MUIRAQUITÃ

        Fica sabendo através dos jornais que Piaimã voltou da Europa.
        Neste capítulo, o narrador explica por que existe o sono e o homem não pode dormir em pé.
        Andando, o herói vê uma casal brincando na beira da lagoa e aproxima-se pedindo um cigarro, o moço diz que não tem e Macunaíma resolve fumar o seu de palha que traz escondido. Esperando dar a hora de ir à casa do gigante ele conta uma história ao casal, explicando que o automóvel, antigamente, era uma Onça parda que perseguida por uma tigre preta resolveu colocar quatro rodas nos pés, tomar óleo de mamona, comer um motor morder dois vagalumes...Assim, transformando-se na máquina automóvel.
        "Dizem que mais tarde a onça pariu uma ninhada enorme. Teve filhos e filhas. Por isso que a gente fala "um forde" e "uma chevrolé".
        Depois da prosa, o gigante chegou . Observando os três parados perto de sua casa, convidou-os para entrar. Perguntou ao moço se queria balançar e o moço subiu no balanço do gigante, porém a velha Ceiuci estava preparando uma macarronada e esperava o sangue do moço para engrossar o caldo. Piaimã deu-lhe um empurrão e jogou-o na macarronada fervendo Agora queria pegar o herói, porém este se recusava a balançar, fez manha e convenceu o gigante a balançar primeiro. A velha preparou o panelão sem saber quem viria engrossar o caldo. De repente, Macunaíma deu um solavanco no gigante e empurrou-o dentro da macarronada da velha Ceiuci
        Então Macunaíma matou o gigante comedor de gente e recuperou sua muiraquitã.
        "Num esforço gigantesco inda se ergueu do fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
        - Falta queijo! Exclamou...
        E faleceu."


Cap. XV - A PACUERA DO OIBÊ

        Recuperado o talismã, resolvem voltar para a selva. Na despedida repete pela última vez a sua definição sobre o país: "Pouca saúde e muita saúva,os males do Brasil são..."
        Levou com ele um revólver e um relógio que pendurou nas orelhas, um galo e uma galinha Legorne e a muiraquitã pendurada no beiço.
        Na volta, pelo Araguaia, pegou a violinha e cantou cantigas tristes e sem sentido, enquanto ia sendo acompanhado pela comitiva de pássaros que o protegia de Sol. Lembrava da donas de pele alvinha e sentia saudades de SP. Perto do mato pegou Iriqui e procurou um lugar para passar a noite.
        Em um rancho, encontrou o monstro Oibê que estava fazendo uma pacuera . Disse que estava com fome e o monstro deu-lhe cará com farinha, água e arrumou um lugar para o herói dormir. Macunaíma roubou a pacuera de Oibê e comeu-a. Perseguido pelo monstro, vomita tudo para se livrar.
        Na correria encontrou uma princesa, brinca com ela e abandona Iriqui que fica desconsolada, por isso resolve subir ao céu. "E o Setestrelo".
 
Cap. XVI - URARICOERA

        Foram chegando perto do Uraricoera e Macunaíma já começa a reconhecer o lugar, porém muita coisa havia mudado e o herói chorou. No outro dia, enquanto todos se ocupavam com algum serviço, Macunaíma deu uma chegadinha até a boca do Rio Negro para buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá; não achando, pegou a de um hispano-americano.
        Jiguê encontra uma cabaça encantada que pertence ao feiticeiro Tzaló que tem ma perna só e, com ela, consegue pescar muitos peixes, mas Macunaíma, roubando a cabaça encantada perde-a no rio e Jiguê fica furioso e deixa todos com fome. Para se vingar do mano, Macunaíma transforma uma presa de sucuri em anzol e pede para que espete a mão de Jiguê. Machucado com o anzol, Jiguê tenta curar a ferida, mas esta transforma-se em uma lepra que devora todo o corpo de Jiguê, deixando apenas sua sombra. A princesa ficou com raiva do herói porque ultimamente andava brincando com Jiguê e ordenou que a sombra envenenada destruísse Macunaíma; assim a sombra virou uma bananeira carregadinha e o herói, faminto, devorou as bananas, adquirindo a lepra. Estando moribundo resolveu passar a doença para sete povos. Veio a Saúde e livrou Macunaíma da morte.
        A sombra voltou e engoliu a princesa e o mano Maanape, mas não conseguiu pegar o herói. Correndo dela, Macunaíma passou por vários lugares do Brasil, até conseguir se livrar. Enfim, a sombra econtrou um boi, subiu nas costas dele e não deixava que o bicho comesse nada, assim o boi morreu e muitos urubus vieram fazendo a festa ( aqui o narrador explica a origem do bumba-meu-boi).
        "A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O pai do urubu ficou muito satisfeito e gritou:
        - Achei companhia pra minha cabeça, gente!
        E voou pra altura. Desde esse dia o urubu ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A sombra leprosa é a cabeça da esquerda."


Cap. XII - URSA MAIOR

        Sozinho agora e com muita preguiça, Macunaíma amarra a rede em dois cajueiros perto de uma pedra com dinheiro enterrado em baixo. "Que solidão!"
        O único que lhe fez companhia foi um aruaí (espécie de arara) muito falador, que aprendia, repetindo, todos os casos contados pelo herói, desde sua infância. E todos os dias a ave repetia o caso da véspera e Macunaíma punha-se a contar mais um.
        Depois de muitos dias na rede, comendo caju e contando casos ao papagaio, a Sol veio fazer cosquinhas no corpo do herói e a vontade de "brincar" reapareceu forte em Macunaíma, então resolveu tomar um banho frio no vale de Lágrimas para a vontade passar. Ao olhar para o fundo das águas viu uma cunhã lindíssima, era Uiara que, mandada pela Sol para atrair o herói e matá-lo, vinha dançando e piscando até que Macunaíma pulou no fundo das águas. Atacado pelas piranhas, perdeu a perna deireita, os dedões, os "cocos da Bahia", o nariz, as orelhas e o beiço com a muiraquitã. Depois de muito procurar, encontrou tudo e colou de volta no lugar, menos a perna direita e a muiraquitã, pois foram engolidos pelo monstro Ururau. Sem um sentido agora para continuar vivendo, resolveu ser brilho inútil lá no céu, deixando escrito numa laje: "NÃO NASCI PARA SER PEDRA". No céu, Pauí-Pódole virou Macunaíma na constelação da Ursa Maior.

EPÍLOGO

        Uma feita um homem foi lá.
.............................................
        Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele.
.............................................
        O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! Que era canto e que era cachiri com mel-de-pau,...
        Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente." 

Considerações gerais

        "Passando abrupdamente do primitivo solene, à crônica jocosa e desta ao distanciamento da paródia, Mário de Andrade jogou sabiamente com níveis de consciência e de comunicação diversos, justificando plenamente o título de rapsódia, mais do que romance que emprestou à obra.
        Simbolicamente, a figura de Macuaníma, o herói sem nenhum caráter, foi trabalhada como síntese de um presumido "modo de ser brasileiro" descrito como luxurioso, ávido, preguiçoso e sonhador: caracteres que lhe atribuía um teórico do Modernismo, Paulo Prado, em Retrato do Brasil(1926). Mas o herói, em Mário, é colocado na metrópole nova e funde instinto e asfalto, primitivismo e modernismo.
        Macunaíma, meio epopéia, meio novela picaresca, atuou uma idéia-força de seu autor: o emprego diferenciado da fala brasileira em nível culto; tarefa que deveria, para ele, consolidar as conquistas do Modernismo na esfera dos temas e do gosto artístico." (Alfredo Bosi)


        "Publicado no mesmo ano de Retrato do Brasil, de Paulo Prado, Macunaíma semelha indicar-lhe a contraface mítica ou folclórica: a tese das duas obras é idêntica, nucleada em torno da luxúria, obsessão do brasileiro e causa de todos os seus males. Como se a rapsódia servisse de ilustração ao ensaio, as andanças macunaímicas são dum homem primitivo, adâmico, sem peias, entregue desenfreadamente aos exercícios eróticos, de onde adviriam as mazelas que sofre. Frágil ante os perigos, salva-se por via do embuste, da mentira ou do absurdo das licenças míticas, que lhe facultam atos mágicos capazes de superar as dificuldades interpostas pelos semelhantes e pela natureza." (Massaud Moisés)

        "Macunaíma, considerado dentro de um tipo de realismo que lida com o maravilhoso e com o mágico, é uma narrativa linear na medida em que observamos o desenvolvimento de sua ação dramática. As peripécias do herói, vividas num tempo e num espaço mágicos, que absorvem o mito do índio e os mitos do povo como contraponto à mitologia da sociedade tecnizada e de uma cultura colonizada, revelam na construção da narrativa a consciência da exploração do maravilhoso e do mágico, que está, aliás, já na própria criação popular, fonte de Mário de Andrade, autor erudito." ( Telê Porto Ancona Lopez)

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo (Resumo)

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo
(Este resumo foi retirado do site vbookstore.uol)
        Olhai os lírios do campo é um dos romances mais famosos de Érico Veríssimo. Um verdadeiro best-seller que resultou até em novela na Argentina. A narrativa da primeira parte é feita em flashback. Eugênio vai lembrando de momentos da sua vida enquanto se dirige ao hospital onde está Olívia.
        Eugênio era um menino tímido e medroso. Teve uma infância pobre, era ridicularizado na escola e tinha como objetivo máximo a ascensão social, faria de tudo para um dia vencer na vida. Achava que o que tinha era feio e sem graça, das roupas até o seu próprio corpo. Não se entrosava com os demais colegas de classe e por isso devotava todo o seu tempo aos estudos. Sonhava em deixar de ser simplesmente o Genoca para ser o Dr. Eugênio Fontes.
        Tinha pena do pai, o alfaiate Ângelo, com quem não conseguia se comunicar facilmente. O seu irmão, Ernesto, não esmerava-se na educação e acabou perdido na vida. Com muito esforço, Eugênio consegue cursar Medicina. Na Faculdade conhece Olívia - única mulher da turma. Na festa de formatura os dois se aproximam e fazem sonhos e confissões juntos, sobre o futuro. Tornam-se grandes amigos.
        Durante a revolução de 30, após uma operação mal sucedida no hospital militar, Olívia convida Eugênio a sua casa e passam uma noite de amor. Dias depois, Olívia recebe uma proposta para trabalhar em Nova Itália, e novamente se entrega aos braços de Eugênio.
        Durante um atendimento médico, Eugênio conhece Eunice Cintra - filha de um riquíssimo proprietário. Eugênio casa-se com Eunice com objetivo único de ascender socialmente. O sogro trata de arranjar um emprego de fachada ("assinar documentos") numa de suas fábricas. Eugênio começa a freqüentar a alta sociedade, mas não se sente parte dela. O seu complexo de inferioridade aumenta ao ver os contrastes desse outro mundo, de emoções contidas, de meias-palavras. Conhece pessoas como Filipe Lobo, construtor obstinado a construir o "Megatério", um arranha-céu, mas não se importava com a família. Infeliz e perturbado, Eugênio reencontra Olívia que lhe apresenta a sua filha, fruto do último encontro dos dois, Anamaria. Ao chegar no Hospital onde estava Olívia, recebe a notícias de sua morte.
        A segunda parte passa-se após a morte de Olívia e é intercalada com a leitura das cartas que ela escreveu para Eugênio sem nunca ter enviado. Eugênio toma coragem e separa-se de Eunice - apesar de todos os incovenientes sociais. Vai além, passa a ser um médico popular, com idéias de socializar a medicina. Trabalha com o Dr Seixas, um velho médico que sempre atendeu aos pobres. A memória de Olívia, nas cartas, nas fotos ou no olhar de Anamaria, o fortalece quando pensa nas dificuldades.
        O original da obra, com correções a mão feitas por Érico Veríssimo, encontra-se hoje na gigantesca biblioteca de José Midlin.

O Primo Basílio - Eça de Queiroz (Resumo)

O Primo Basílio - Eça de Queiroz
(Este resumo foi retirado do site vbookstore.uol)
 

INTRODUÇÃO

A Revolução Industrial iniciada no século anterior, na Inglaterra, provocou uma industrialização acelerada em vários países. As cidades cresciam rapidamente, camponeses transformavam-se em operários urbanos e a vida cultural diversificava-se. Londres, Berlim, Viena e principalmente Paris eram o centro de um vigoroso processo criativo. Enquanto isso, Portugal mantinha-se apegado às glórias do passado. O pais não chegou a desenvolver uma burguesia empreendedora e capitalista, nem uma elite intelectual significativa que fizesse desenvolver as artes e as ciências. A elite de Lisboa vivia apegada às glórias coloniais passadas. De costas para o futuro, vivia centrada em sua vidinha sem perspectivas.
         A escola realista propõe uma criação literária apoiada na análise objetiva da realidade. O narrador vê os acontecimentos com neutralidade e domina as informações sobre o contexto o qual o enredo acontece. O Naturalismo traz uma preocupação a mais: tenta introduzir o método científico na obra literária e, com isso, intensifica e amplia as tendências básicas do Realismo. 

POSICIONAMENTO DO AUTOR EM RELAÇÃO AO TEMA

         Eça de Queirós faz parte de uma geração de jovens intelectuais, centrada em Coimbra, que reagem contra o atraso do país. Eles criticam o Romantismo como um sinônimo desse atraso. E com seus Realismo e Naturalismo pretende incorporar à Literatura os métodos científicos próprios das ciências naturais. O autor disseca essas deformações da sociedade lusitana e explica sua fonte de pesquisa e inspiração neste trecho de uma carta enviada a Teófelo Braga "Mas a verdade é que eu procurei que os meus personagens pensassem, decidissem, falassem e atuassem como puros lisboetas, educados entre o Cais do Sodré e o Alto da Estrela; não lhes daria nem a mesma mentalidade, nem a mesma ação se eles fossem do Porto ou de Viseu; as individualidades morais variam de província a província".
         Eça também observa que não ataca a família enquanto instituição, mas sim "a família lisboeta, produto do namoro, reunião desagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro de "bambochata".
         O Primo Basílio apresentava-se como uma lente de aumento sobre a intimidade das famílias "de bem" de Lisboa da metade do século XIX. Representa um dos primeiros momentos de reflexão sobre o atraso da sociedade portuguesa em um mundo profundamente transformado pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento tecnológico. 

PERSONAGENS 

LUÍSA 

         Na descrição que o próprio Eça de Queiroz faz na carta a Teófilo Braga, Luísa é "a burguezinha da Baixa" (Lisboa, Cidade Baixa): urna senhora sentimental, sem valores espirituais ou senso de justiça. É lírica e romântica, ociosa e nervosa pela falta de exercício e disciplina moral". Luísa é esposa de Jorge, engenheiro de minas que ela conheceu após o abandono e rompimento (por carta) do noivado com o primo Basílio. Sua vida tranqüila de leitora de folhetins é alterada pela viagem do marido e o retorno do primo a Portugal.
         O motivo que a leva a se entregar a Basílio, de acordo com as reflexões de Eça, nem ela sabia. Uma mescla da falta do que fazer com a "curiosidade mórbida em ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico..." 

BASÍLIO 

         O primo e ex-noivo que retorna a Portugal na ausência do marido de Luísa é para Eça de Queirós "um maroto, sem paixão nem a justificação de sua tirania, que o que pretende é a vaidadezinha de uma aventura e o amor grátis".
         Malicioso e cheio de truques para atrair a amante explorando a sua vaidade fútil, Basílio compara a fidelidade conjugal a uma demonstração de atraso das mulheres de Lisboa frente aos hábitos supostamente liberais e modernos das senhoras de Paris - todas com seus amantes, conforme assegurava o primo.
         Desprovido de charme ou atributos mais sedutores, é o mais cínico dos personagens "conquistadores" de Eça de Queirós. Em momentos de maior dramaticidade, quando começam a enfrentar as conseqüências do adultério, o cinismo de Basílio fica mais evidente: ele pensa apenas que teria sido mais vantajoso trazer consigo uma amante de Paris. 

JULIANA 

         A criada Juliana faz desmoronar o mundo de Luísa ao chantageá-la com cartas roubadas. É a figura que aparece com alguma intensidade interior, destoando um pouco das razões fúteis que movimentam os demais personagens.
         Ela se conduz pela revolta (não suporta sua condição de serviçal), pela frustração (fracassou na tentativa de mudar de vida), pelo ódio rancoroso contra a patroa (ódio, na verdade, contra todas as patroas que a escravizaram por 20 anos).
         Assim como Basílio, Juliana tentará tirar proveito circunstâncias, reunindo provas do adultério para fazer chantagem. Mas ela pretende mais do que dinheiro - que exige sem sucesso de Luísa; ela quer a desforra. E os recursos que utiliza levarão o definhamento físico e emocional da patroa, até o desfecho da história. 

JORGE 

         Todo o drama iniciado com o roubo das cartas se deve à tentativa de Luísa de impedir que Jorge saiba do adultério. Com aparições, no romance, sua presença se faz sentir pelo papel social que representa: é o marido. E a forma como poderá reagir à infidelidade, é especulada pelo narrador através, de outro personagem, Emestinho Ledesma, autor medíocre que prepara uma peça teatral sobre um caso de adultério, pede a Jorge uma opinião sobre o final de sua obra. Um marido deve matar a mulher adúltera? 

PERSONAGENS SECUNDÁRIOS 

         Os personagens secundários completam o quadro social lisboeta. O Conselheiro Acácio, freqüentador do círculo próximo de Luísa, um dos mais citado e conhecido personagem de Eça, é o intelectual vazio. Sua habilidade em dizer o óbvio com empáfia deu origem à expressão "verdades acacianas". Joana é a cozinheira que enfrenta Juliana por dedicação à Patroa; Dona Felicidade é a "beatice parva de temperamento irritado". E também há, Sebastião (o bom rapaz), que se propõe a recuperar as cartas tomadas pela criada. 

ESTILO E LINGUAGEM 

         Notamos que a obra de Eça adapta o texto literário ao ritmo da língua falada. Assim, rejuvenesce a linguagem literária. O autor afasta-se do uso de frases extensas e sobrecarregadas. Esbanja habilidade para expressar-se em seqüências de frases curtas, cheias de ritmos e significados. Usa e abusa da descrição minuciosa, quase obsessiva, do espaço físico e da sociedade, explicando cada personagem a partir de seu contexto socioeconômico. 

CARACTERÍSTICAS REALISTAS PRESENTES NA OBRA 

         Segundo palavras do próprio autor, o Romantismo "... em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social. (... ) Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica".
         Percebemos que em O Primo Basílio, o homem é observado como um animal que tem o comportamento determinado pelo meio ambiente, pelas circunstâncias que o pressionam e hereditariedade, caracterizando o Determinismo.
         Os elementos "científicos" tornam-se mais importantes do que a interioridade ou subjetividade dos personagens. A origem social, educação e influências externas ganham ênfase determinantes. Novos recursos são incorporados à linguagem, como termos e explicações científicos para expressar a fragilidade da condição humana, com suas doenças e seus vícios.
         A combinação da leveza e do brilho das descrições com o relato grosseiro da realidade é outra marca estilística de Eça. Ele opõe a expectativa romântica de Luísa e a ironização de suas idealizações ao descrever as atitudes grosseiras do amante Basílio. Bem ao gosto do Naturalismo, compara seres humanos com animais dominados por seus instintos, definindo a criada juliana como uma loba.
         O plano exterior de O Primo Basílio predomina sobre o plano interior. O exagero descritivo dos ambientes reforça e complementa a fragilidade psicológica dos personagens, que nada têm de admirável. Emoções, sensações e desejos surgem no texto como ações externas ao personagem.

CONCLUSÃO 

         Diante do cenário histórico, descrito no início dessa análise, Eça de Queiroz publica, em 1878, O Primo Basílio. O livro inova a criação literária da época, oferecendo uma crítica demolidora e sarcástica dos costumes da pequena burguesia de Lisboa. Eça de Queirós ataca uma das instituições consideradas das mais sólidas: o casamento. Com personagens despidos de virtude, situações dramáticas geradas a partir de sentimentos fúteis e mesquinharias, lances amorosos com motivações vulgares e medíocres - tudo isso, ao mesmo tempo em que ataca, desperta o interesse da sociedade de Lisboa. Eça de Queirós explora o erotismo quando detalha a relação entre os amantes. Inova também ao incluir diálogos sobre homossexualismo. O autor, que já mostrara sua opção por uma literatura ácida e nada sentimental em O Crime do Padre Amaro, cria personagens fisicamente decadentes - cheios de doenças e catarros - e de comportamento sexual promíscuo. 

RESUMO 

         Luísa é uma jovem loira, de grandes olhos castanhos, romântica, sonhadora e frágil; é casada com Jorge, engenheiro de minas, homem de bons hábitos e com algumas posses. Casaram-se meio no escuro; no entanto Luísa dera uma boa esposa, "tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho".
         A primeira cena se dá num domingo de muito calor. Estão marido e mulher na sala de jantar: ele anuncia sua próxima viagem a fim de cuidar de negócios no Alentejo; ela, displicentemente, folheia as páginas de um jornal, onde lê a notícia da chegada de seu primo Basílio a Lisboa. Basílio fora namorado da jovem e lhe prometera casamento. Mas, com a falência do pai, o rapaz viajara para o Brasil, onde acabara arranjando fortuna com a especulação da borracha. Fixara residência em Paris. Luísa recebe uma carta de Basílio rompendo o namoro e, depois de um ano de silêncio, casara-se com Jorge.
         Jorge parte. Alguns se passam e Luísa está enfadada; o calor é imenso e suas leituras não a consolam. Está se vestindo para ir à casa de uma amiga, a mal falada Leopoldina, quando recebe a visita do primo. Basílio não se arrepende de tê-la visitado, vendo aí uma oportunidade para um caso amoroso. Luísa por sua vez, fica embevecida com o primo, admira-lhe a nova vida, encanta-se com suas aventuras e viagens. Tudo o que ele fala serve para excitar a imaginação da moça; ouvindo-o, ela vive como em um romance.
         Basílio começa a visitá-la freqüentemente, dando muito o que falar à vizinhança e instigando a curiosidade e a maledicência de Juliana, a criada de dentro de casa. Por sua formação, Juliana fica à espreita, esperando uma oportunidade para despejar seu ódio não só contra a patroa, mas contra a vida que a maltratara. Dela exala revoltada amargura de viver: "servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltada a saúde! (...)"
         Basílio não perde as esperanças de Ter a prima em seus braços; percebendo que a moça era passível de sedução, utiliza-se do pretexto de sua partida para a França, e, uma ocasião, ao despedir-se altas horas da noite, a jovem se entrega a ele.
         Juliana, desconfiada, só necessitava comprovar suas suspeitas. Certo dia Luísa recebe a visita de D. Felicidade, justamente quando estava a escrever uma carta extremamente comprometedora. Perturbada com o fato inesperado, joga a carta no lixo. a criada recolhe o papel amassado e o guarda. Quando Luísa vai procurar a carta, ela alega que já havia despejado o lixo.
         Depois do episódio, Luísa fica apreensiva e só se reanima quando recebe uma carta de Basílio, marcando um encontro no "Paraíso", lugar afastado onde poderiam estar sossegado. O "Paraíso" constitui-se em uma grande decepção para Luísa, pois ela o imagina idilicamente e só encontra um aposento sórdido.
         Juliana põe-se mais servil, enquanto os comentários dos vizinhos prosseguem. Sebastião, bom amigo de Jorge, após ter viajado por duas semanas, ouve aturdido os falatórios. O primo não voltara à casa de Luísa, e ela saía todos os dias, ficando fora tardes inteiras. Sebastião, preocupado com a reputação da casa, tenta conversar com a esposa do amigo. Enquanto isso, Juliana, começa a perseguir mais provas do adultério, por isso rouba de Luísa a chave do cofre de correspondência.
         Luísa vai-se envolvendo em mentiras. Certa vez, a caminho do "Paraíso", encontra Ernestinho, íntimo da casa, autor teatral que estava escrevendo uma peça justamente sobre uma mulher adúltera. Luísa escapa desajeitada e começa a refletir sobre seus atos. A indiferença de Basílio é nítida. Ele a ama menos...
         "Já não tinha aqueles arrebatamentos do desejo em que a volvia toda numa carícia palpitante, nem aquela abundância de sensação que o fazia cair de joelhos com as mãos trêmulas como as de um velho! ... Já não se arremessava para ela, mal ela aparecia à porta, (...). E parecia, Deus me perdoes, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... E pensava em Jorge, para quem ela era decerto a mais linha, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!... E já pensava um pouco que sacrificara a sua tranqüilidade tão feliz a um amor bem incerto(...)!"
         Águas passadas. As brigas do casal adúltero, as insatisfações da moça não passavam de meras rusgas e reflexões. Luísa voltava dócil e fogosa aos braços do amante. Os encontros no "Paraíso" continuavam.
         Outro incidente, desta vez com o Conselheiro Acácio, que a encontra e a acompanha, fazendo-a perder o encontro com Basílio. Ao voltar para casa, meio histérica, vê que Juliana não arrumara o quarto e passa-lhe uma descompostura. A criada então confessa que nem todos os papéis foram para o lixo, que ela tinha a carta supostamente perdida.
         Luísa desmaia. Ao retornar a si, acredita estar perdida. Pensa em fugir com Basílio para Paris, como ele já havia proposto tantas vezes; vê-se nos braços do amante, com uma nova via, repleta de sensações. Mas Basílio recusa-se a partir com ela; foge sozinho, simulando um telegrama urgente que pedia sua presença em Paris, a fim de resolver negócios.
         Sozinha, desamparada e à mercê das chantagens da criada, Luísa passa a viver uma vida miserável. Inverte-se a situação na casa: Juliana começa a ter as regalias da patroa. Jorge retorna e estranha o relacionamento da esposa com a empregada que tanto a desgostara outrora, ela tenta explicar essa mudança dizendo que a criada cuidou dela, com muita dedicação, em um momento que se encontrava doente. Luísa tenta conseguir os seiscentos mil réis que lhe pede Juliana, a fim de terminar com a chantagem. Não tem como consegui-los, a não ser tornando-se amante do banqueiro Castro, que há muito a adorava; Leopoldina arranja-lhe um encontro com o ricaço, mas Luísa não consegue entregar-se a ele. A situação fica insustentável, à medida que Jorge vai percebendo os disparates da criada. Desesperada, recorre a Sebastião, contando-lhe a situação em que se vê envolvida.
         Sebastião, sensibilizado com tudo por que Luísa tem passado, recupera as cartas.
          "Juliana então alucinada de raiva, com os olhos saídos das órbitas, veio para ele e cuspiu-lhe na cara!
         Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para trás, levou com ânsia as mãos ambas ao coração e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo de roupa.
"
         Luísa adoece de uma febre nervosa, como conseqüência do medo de ter uma morta em casa. Juliana é enterrada numa vala comum.
         Tomam nova criada. Luísa começa a restabelecer-se, quando chega uma carta escrita por Basílio. Jorge, curioso, lê o texto revelador e em um lance descobre a traição da mulher.
         "(...) Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que minha partida fosse motivada por negócios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, todas as ilusões sobre o amor, porque foi realmente quando saí de Lisboa que percebi quanto te amava, e não há dia, acredita, em que me não lembre do Paraíso (...)".
         Jorge, então, mostra a carta à esposa convalescente. Num gesto trágico, Luísa cai desmaiada; as febres voltam e logo sobrevém a morte. No final do romance, Eça registra a idiotizada figura do Conselheiro Acácio, envolto no dever de escrever um necrológico para Luísa, e a futilidade do amante ao saber da morte da prima. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Oliveira de, Clenir Bellezi. Arte Literária: Portugal - Brasil. São Paulo: Moderna, 1999.
http://www.ipn.pt/opsis/litera/index.html. Projeto Vercial - Literatura Portuguesa.