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18 de julho de 2012

Ensaio sobre a amizade




Ensaio sobre a amizad

Lya Luft

                             A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem o ônus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela para quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.
                            Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de “minha gatona” mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: “Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta”. O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com… amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes faltam nem luz, nem espaço, nem afeto.

(Lya Luft)

Drumundana




Drumundana

E agora Maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

E agora Maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria.


(Alice Ruiz )

17 de julho de 2012

Milágrimas



Milágrimas 

Alice Ruiz

Em caso de dor, ponha gelo. Mude o corte do cabelo. Mude como modelo. Vá ao cinema, dê um sorriso. Ainda que amarelo. Esqueça seu cotovelo. Se amargo for já ter sido. Troque já este vestido. Troque o padrão do tecido. Saia do sério deixe os critérios. Siga todos os sentidos. Faça fazer sentido. A cada milágrimas sai um milagre. Em caso de tristeza vire a mesa. Coma só a sobremesa. Coma somente a cereja. Jogue para cima, faça cena. Cante as rimas de um poema. Sofra apenas, viva apenas. Sendo só fissura, ou loucura. Quem sabe casando cura. Ninguém sabe o que procura. Faça uma novena, reze um terço. Caia fora do contexto, invente seu endereço. A cada milágrimas sai um milagre. Mas se apesar de banal. Chorar for inevitável. Sinta o gosto do sal. Sinta o gosto do sal. Gota a gota, uma a uma. Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre. A cada milágrimas sai um milagre.




Fonte Patrícia Ximenes